23.8.05

Cavell, cidadania, esportes

Essa postagem diz respeito ao debate sobre as possíveis implicações formacionais das atividades de Educacão Física no campo moral. Retomo aqui umas idéias sugeridas em meu escrito no livro da Vozes sobre Filosofia no Ensino Médio. O artigo 26 da Lei de Diretrizes e Bases da Educação, que dispõe sobre a base nacional comum dos currículos do ensino fundamental, tem a seguinte redação sobre educação física, no parágrafo terceiro: “A educação física, integrada à proposta pedagógica da escola, é componente curricular da Educação Básica, ajustando-se às faixas etárias e às condições da população escolar, sendo facultativa nos cursos noturnos.” Pode-se ver que o legislador não fez nenhum vínculo entre educação física e cidadania. Não é curioso isso? A idéia que apresentei é que a aula de Educação Física é também um espaço de formação moral privilegiado, em especial porque ali podem ser praticados esportes çoletivos e em público, que dependem, para sua realização, do aprendizado de coisas como a natureza pública das regras, a igualdade de todos diante da lei, a constituição de espaços públicos de julgamento. Um professor de educação física poderá jamais pronunciar a palavra “cidadania” em suas aulas; mas é possível que em suas aulas ocorram os mais significativos aprendizados de cidadania, invisíveis e indeléveis, e por isso mesmo, profundos. Essa forma de ver a aula de educação física, que devo a Cavell, está baseada na natureza dos esportes públicos: o estabelecimento coletivo de critérios, o exercício de julgamentos abertos à inspeção de todos e assim assentados publicamente, o convívio com ações e decisões que não podem esperar até a certeza absoluta, são situações de aprendizado de habilidades essenciais da vida em comunidade que ocorrem na aula de ... educação física! Se estamos falando de escola, eu quero dizer com todas as letras que não acredito no monopólio da formação crítica por parte da aula de filosofia. Um professor de Educação Física tem muito a contribuir com a formação da dita cuja.
A frase que me inspirou está no livro de Cavell, "The Claim of Reason", p. 31: "Uma virtude dos esportes é a celebração que fazem da habilidade da comunidade de take up its own slack - de prover-se de uma arena na qual a finalidade do juízo sobre ações é sustentada pela certeza, e na qual a certeza é essencialmente uma questão de ver." Fico devendo uma boa tradução para essa expressão, "take up its own slack". Ela indica algo como fazer ou assumir os nossos ajustes.

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