25.8.05

Teoria da sala de aula (I)

Propus, na segunda parte da aula de sexta-feira passada (19/08) uma reflexão sobre o tema que chamei de “Teoria da Sala de Aula”. Experimentei digitar esta expressão no Google e não apareceu nada. Ou o tema não é relevante ou talvez saibamos tudo sobre o que é uma sala de aula e não precisamos analisar tal tema. Acho que é melhor pensar uma hipótese intermediária: sabemos muito sobre o que é uma sala de aula, mas é um saber implícito, pouco tematizado.
Vou tentar resumir os pontos principais. Minha frase de provocação na aula foi essa: se encaramos uma sala de aula de uma escola dita convencional como um jogo de futebol, com alunos de um lado e professor de outro, esse jogo começa sempre com um a zero a favor dos alunos. Os alunos saem sempre com um gol na frente do professor porque eles ocuparam o campo antes e escalaram as posições. O que eu quis indicar com essa metáfora foi o fato dos alunos ocuparem os lugares da sala de aula de acordo com uma certa lógica de domínio territorial e de exercício de poder entre eles e isso é um acontecimento pedagógico relevante; por mais relevante que seja, costumamos varrer esse fato para baixo do tapete didático.
A segunda idéia foi esta: se você é um professor experiente, ao entrar numa sala de aula de ensino médio pela primeira vez, já sabe um pouco sobre cada aluno pelo simples fato que cada um ocupou seu lugar a partir de uma certa dinâmica. Nessa teoria, a ocupação dos lugares é realizada a partir de pequenos exercícios de poder, que levam em conta a arquitetura da sala e as expectativas dos alunos sobre o comportamento do professor. As salas de aula normalmente são retangulares, com janelas de um lado, para o pátio ou para o exterior, mesa do professor na frente, carteiras em filas, etc. Nesse tipo de espaço cada um dos lugares propicia condições favoráveis para o exercício dos diversos papéis possíveis numa pequena comunidade de adolescentes: líder alfa, turma da maçã, saco de pancadas, asseclas do alfa, etc. O lugar do líder alfa sempre costuma ser um dos cantos dos fundos, preferencialmente o que tem vista para fora. De costas para a parede, ele controla todo o ambiente; dos fundos ele pode jogar bolinhas de papel nos outros e para isso seus capangas ocupam as demais classes dos fundos. A primeira fila certamente é a fila da turma da maçã, recompensada pela voz baixa do professor quando a bagunça é grande; no meio da sala, o saco de pancadas da turma, que ocupa o ponto mais frágil da sala, do ponto de vista territorial.
O professor – o estagiário - entra na sala para a primeira aula, e esses dados já foram lançados, o jogo já está um a zero para os alunos, pois o estagiário não foi encorajado (com as devidas práticas) a intervir no território. Na verdade, é como se houvesse um pacto silencioso, que permite ao professor ocupar o espaço entre a mesa e o quadro verde, mas sem mudar a disposição das pessoas, cada uma entrincheirada em sua mesa. Vai muito longe o tempo das primeiras séries, quando a professora podia fazer rodízio. Nesse pacto silencioso de gente grande, cada um conquistou o seu lugar, à duras penas, chegando mais cedo, olhando feio, rosnando, empurrando: cada aluno tem o seu lugar, e ali vai morrer.
O professor-estagiário respira fundo e faz o que pode. Na frente de todos, como um artista. A sala de aula mais parece um sambódromo.
(Segue)

2 Comments:

Blogger geraldo fruet said...

talvez, seria necessario, para preparar o futuro professor estagiário, dar mais prioridade para disciplinas de caráter didático, existe um forte aparato acerca dos conteúdos filosóficos porém, como aplicar existe muito disque-disque e n teorias e pouca experiência na prática.

sexta-feira, agosto 26, 2005 4:27:00 PM  
Blogger newton said...

NÃO ACREDITO FRIAMENTE NA TESE, PELA POUCA EXPERIÊNCIA, DIRIA QUE A SALA DIVIDE-SE EM ALUNOS DESINTERESSADOS, POUCO INTERESSADOS E BEM INTERESSADOS. MESMO QUE UM LIDER, NOS DOIS ASPECTOS MENCIONADOS, QUISESSE UM LUGAR PRIVILEGIADO, ESSE SERIA O QUE MELHOR ATENDERIA SEUS INTERESSES NA SALA OU ESCOLA. P/EX. ALGUÉM QUE QUER APRENDER, NÃO VAI SENTAR JUNTO A TURMA DO BARULHO, ISSO VAI CONTRA SEUS INTERESSES E VICE-VERSA. POR OUTRO LADO, A CONQUISTA DE QUALQUER COISA PELA FORÇA INDICA UMA PRECÁRIA EDUCAÇÃO, LOGO ACREDITO SERGUIR A TESE DE QUEM CHEGAR/ENTRAR PRIMEIRO, OS ATRASADOS NÃO TEM MUITA ESCOLHA, MESMO QUE DENTRE ESTES ESTEJA UM VERDADEIRO LÍDER. (newpal)

quarta-feira, fevereiro 08, 2006 9:21:00 AM  

Postar um comentário

<< Home

web site hosting count: