12.9.05

“DUAS COISAS MOVEM O UNIVERSO: DINHEIRO E SEXO” *


O texto a seguir mostra que a filosofia, as coisas, as diferenças, o movimento, o universo, o dinheiro e o sexo podem se encaixar, assim como “as melancias vão se ajeitando com o andar da carroça”.
Se entendermos que “universo” significa um aglomerado de átomos, um conjunto imenso de partículas, isto é, de matéria, organizado, que mantém relações e movimentos regulares, no tempo e no espaço, e que para ser descrito exige uma argumentação complexa, logicamente estruturada, além do emprego de recursos da matemática somados a procedimentos de experimentação envolvendo um grandioso aparato tecnológico. E se aceitarmos como verdade que somente corpos de “mesma natureza” podem interferir no movimento uns dos outros. Pareceria pouco razoável um cientista afirmar que, a diminuição da divida externa brasileira, o aumento no potencial de compra do cidadão ou a queda de uma moeda em um bueiro, seriam as “causas físicas” do surgimento de uma nova galáxia, ou até mesmo, que a minha vontade de fazer sexo ou o ato do coito entre dois elefantes numa tarde de sábado poderiam interferir na trajetória de um cometa.
Não faz “sentido” afirmar que um evento físico, como o “movimento do universo”, seja causado por fatores de um tipo adverso, como “dinheiro e sexo”.
Porém, essa hipótese, de que fatores como “dinheiro” e “sexo” podem ser os responsáveis pelo curso de acontecimentos reais, pode ser razoável, desde que por universo entendamos a totalidade da “vida humana”, composta da “subjetividade” minha e sua, pelos anseios, desejos, vontades, expectativas, sonhos, propósitos, planos, interesses, preferências, valores, crenças e tudo mais que podemos caracterizar como constituinte da “dimensão psíquica”, e também por todo o conjunto de “artefatos culturais” e “bens simbólicos” que decoram o ambiente a nossa volta e determinam a estrutura social e as histórias de vida e das sociedades.
Nesse caso, a partir dessa reformulação das “condições de compreensão” desse “ditado popular”, faz sentido dizer que fatores como dinheiro, sejam malas de dólares ou na forma de uma ajudinha financeira, e sexo, seja representado explicitamente em uma revista ou subentendido em uma mensagem de e-mail, podem influenciar no movimento do “universo”.
Mas qual é o critério para decidir se essa afirmação tem ou não tem sentido, ou ainda, como determinar qual sentido é o correto?
A “riqueza semântica” presente na linguagem humana, que nos permite fazer poesia, criar um conto, formular uma piada, distinguir entre perguntas e respostas, traduzir o texto de uma língua para outra, entender o que alguém diz sobre o mundo, gerar conhecimento e comunica-lo como uma informação, também produz divergências, ambigüidades, contradições e “confusões semânticas”.
Uma “metáfora”, tal como aquela que está no título e representa o tema gerador dessa dissertação, é exemplo de uma “afirmação” cujo “significado literal” pode ser questionado, e sua interpretação pode gerar ambigüidades e falta de clareza.
Para nossa sorte existe uma área de profissionais interessados com a clareza dos conceitos, os filósofos. É em torno dos “significados”, que ligam linguagem de um lado e mundo de outro, que se localiza a “prática em filosofia”.
A filosofia, em seus “procedimentos analíticos”, consegue demonstrar que no uso cotidiano de nossa linguagem natural podem surgir “problemas” na compreensão dos significados de “algumas” frases e termos. Problemas esses que tem solução. E solução essa que começa com a formulação de uma boa pergunta.
É através do questionamento filosófico que aprendemos não somente, que muitas coisas que acreditamos ser podem não ser, que além da aparência está a essência, que a verdade está fora da caverna, ou que existo porque penso, mas também que a linguagem possui uma estrutura formal lógica, que existem diversos tipos de discursos, que afirmações verdadeiras podem ser questionadas e que existem verdades que ainda não foram refutadas, que a diferença entre o significado de natureza física e não-física não é explicada pela física, que a origem, o movimento e a relação de causa e efeito são temas clássicos da filosofia, que nem todas as perguntas que formulamos são filosóficas, que um argumento pode ser válido mesmo contendo algumas afirmações falsas, e que a filosofia é uma disciplina que evoluiu desde Sócrates.
Durante os mais de 26 séculos que a atividade filosófica existe, “as melancias foram se ajeitando”, diversas disciplinas científicas foram tomando um caminho especializado, um forte êxodo iniciou com aquelas chamadas de philosofia natural (a física, química e biologia) junto com a matemática, e se completou mais tarde com aquelas chamadas de “ciências do espírito” (psicologia e ciências sociais como economia e sociologia). Durante esse processo fez da história da filosofia, uma história de partilhas e desencontros, a filosofia por um tempo ficou quase sem identidade, mas sobreviveu e demarcou sua área de atividades.
Devido as práticas de reflexão e crítica incentivadas pela filosofia, hoje existem contribuições que nos permitem compreender e decidir qual é o sentido de uma afirmação, com mais clareza.
A afirmação, “duas coisas movem o universo: dinheiro e sexo”, tem sentido mas não literal, por isso é tão freqüente em textos de estilo literários. E esse sentido é metafórico, ninguém em sã consciência empregaria essa afirmação para se referir aos planetas. Quando usamos essa frase nos referimos a nós mesmos, ao “universo humano”.
Para nós, sexo e dinheiro são condições necessárias para a vida. Um é um instrumento, criado pelo homem, que regula a sobrevivência material do indivíduo que vive nas atuais sociedades, pois sem dinheiro não compramos aquilo que satisfaz nossas necessidades e desejos. Enquanto o outro é uma maneira, imposta pela natureza, que permite a reprodução da espécie e gera um dos maiores prazeres da vida, o gozo. Ou seja, ambos satisfazem as principais necessidades da vida humana sobre a terra e em meio a sociedade.
Todavia cabe a pergunta, será que a totalidade do universo humano é explicada por apenas “duas” causas originais?
Não precisamos assumir extremos, nem mesmo nos limitarmos a dizer que “somente sei que nada sei”, ou que “somente devemos usar a linguagem em sentido literal”, mas perguntas como a anterior estão no terreno das ciências empíricas, além das pretensões da filosofia. Não cabe aos filósofos responde-la.
Se existe algo que os filósofos podem fazer é não ficarem presos somente a problemas clássicos e “internos”, isolados de questões mais conhecidas do senso comum, sobre o “direito a terra”, por exemplo. E saber, que quando lidam com o sentido e os significados estão interferindo na aprendizagem de indivíduos, e toda aprendizagem resulta em alguma mudança de comportamento, em especial na mudança de valores, inclusive no significado da vida e da morte. Por isso a filosofia também mantém relações com os “problemas da vida”.
De qualquer forma podemos ter orgulho do estágio ao qual chegamos no uso da racionalidade, uma valiosa herança, e tentar imaginar até onde nossa capacidade criativa pode nos levar durante o “andar da carroça”.

* Afirmação retirada e adaptada de um trecho do conto “Um Especialista” de Lima Barreto.


ASSINADO: DANTRO GUEVEDO
SANTA MARIA, 12 DE SETEMBRO DE 2005.

3 Comments:

Blogger Ronai Rocha said...

A frase do Lima Barreto é citada apenas como um pretexto, por assim dizer, e com isso não cumpre o objetivo do primeiro ensaio. A reflexão sobre uma frase como aquela é interessante, mas não era essa a idéia, não? Creio que podes aproveitá-lo na próxima etapa.

segunda-feira, setembro 12, 2005 5:55:00 PM  
Blogger adhd said...

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