23.9.05

"A Eterna Contradição Humana"

“A Eterna Contradição Humana”

No conto intitulado “A Igreja do Diabo”, Machado de Assis nos apresenta o relato da vez em que o Diabo resolveu fundar a sua própria igreja, julgando ser essa a alternativa mais eficaz para destruir de vez as diversas religiões; queria esvaziar os céus e obter a vitória final e o triunfo completo, imperando absoluto entre os homens. Assim, foi aos céus declarar os seus novos planos e, animado pelo novo desafio que travava com Deus, tratou logo de disseminar a sua doutrina. Com a sua retórica eloqüente, o Diabo foi aos poucos convencendo as pessoas que, entusiasmadas, passavam a “amar as coisas perversas e detestar as sãs”. A doutrina do anjo renegado era simples: preconizava que a avareza, a soberba, a gula, a ira, a luxúria, a preguiça são as nossas virtudes naturais e legítimas; assim, era preciso uma reformulação das estruturas valorativas, abandonando a prática das velhas virtudes sociais e exercitando as novas virtudes. E, conforme o Diabo havia planejado, aos poucos a doutrina de sua igreja espalhou-se pelo globo, e tornou-se, com o tempo, a nova ordem no mundo. Após longos anos, porém, o Diabo notou que muitos dos seus fiéis praticavam, às escondidas, as virtudes antigas; viu avarentos dando esmolas, ladrões que devolviam o que roubavam...a traição dos fiéis enfureceu o Diabo, que correu aos céus para saber qual era o motivo de tão assombroso fenômeno. E Deus, com naturalidade, lhe respondeu que isso se devia a eterna contradição humana.
É a partir desta declaração de uma eterna contradição da natureza humana que inicio minha reflexão filosófica. É possível, no meu ponto de vista, analisar essa afirmação sob três perspectivas.
Uma abordagem desta obra pode assumir como ponto de partida fundamental o dilema em que o ser humano se encontra neste conto machadiano. Tal dilema se instaura na medida em que se apresentam duas possibilidades existenciais: viver segundo um princípio egoísta, na terra, ou abdicar dos prazeres e desejos egoístas na esperança da imortalidade nos céus. Nota-se, neste caso, o egoísmo identificado como postura de vida, se entendermos que há, implicitamente, a tese de que a relação do homem com os objetos do mundo e com outros homens se dá sob um princípio egoísta; sendo o egoísmo, portanto, o motor das relações humanas.
É possível verificar (e esta é a segunda perspectiva da qual pode-se partir para uma reflexão filosófica) a influência da idéia de imortalidade no fundamento de uma proposta ética, exemplificado no conto pelo modelo ético cristão. É curioso observar o estilo irônico da narrativa de Machado de Assis quando, por exemplo, o Diabo procura convencer os homens de que estes devem negar a metafórica realidade divina e aceitar a verdadeira realidade, do mundo terreno. Contudo, esta relação entre o desejo da imortalidade e o dever ser (que constitui aparentemente a ‘receita’ para se chegar à imortalidade) pode ser amplamente discutida.
A terceira possibilidade de abordagem que sugiro a respeito desse conto machadiano é discutir a afirmação da contradição humana, entendendo com isso uma relação de instabilidade e conflito em que o homem se encontra, no que diz respeito especificamente às leis morais. E é nesta perspectiva que conduzirei minha reflexão no presente texto. Não obstante durante todo o conto ser possível vislumbrar elementos passíveis de reflexão filosófica, a riqueza do conto só pode ser devidamente explicitada em uma análise mais pormenorizada. Uma vez que o meu intuito aqui é discorrer sobre um aspecto determinado do conto, não é possível refletir satisfatoriamente sobre todas as implicações filosóficas que podem emergir desta obra de Machado de Assis.
Assim, minha análise limita-se aqui a uma discussão acerca da situação de conflito, no que se refere ao plano existencial humano e, mais especificamente, ao plano moral.
A contradição vivida pelo homem pode ser entendida como uma situação de instabilidade, a qual identifico aqui com um estado de insatisfação do ser humano, na medida em que este encontra-se em uma determinada ordem1. Essa insatisfação é a expressão do conflito humano entre a licenciosidade própria da vontade (a busca pela satisfação de necessidades e desejos do corpo, bem como do intelecto2) e a liberdade socialmente admitida e de acordo com as determinações das leis morais. No conto de Machado de Assis, o que determina a situação de conflito (de como o homem deve agir) são as idéias de imortalidade e egoísmo. Porém, é possível ultrapassar esses “fundamentos de valores de conduta” para deter-se estritamente no conflito entre a vontade do homem e a coação das leis instituídas pelo homem. Assim, é possível delimitar a discussão na consideração de que a relação que o homem estabelece com as leis que regulam o seu agir não é uma relação estável. E, mais especificamente, é possível perceber que a linha divisória entre o permitido e o não permitido (socialmente falando) é facilmente ultrapassada pelo homem. Por quê?
Talvez aqui seja conveniente afirmar que o ser humano é um ser dinâmico, não-estático, que está sempre em uma busca constante pelo sentido do mundo e de si próprio. E, assim, vai continuamente reformulando e ressignificando a realidade, conforme se contenta com determinados princípios (sejam esses princípios religiosos, científicos ou filosóficos). Mas, de certa forma, a espécie humana encontra-se sempre em uma situação de instabilidade, de incertezas com relação à verdade e o sentido de sua vida e do universo em geral. E as regras e princípios, que servem de referência para a compreensão da vida e do agir nesta vida, se instauram tão facilmente quanto são quebradas e reavaliadas pelo homem.
De fato, as regras de ação não estão definitivamente e objetivamente estabelecidas pela humanidade, justamente porque o homem não consegue deixar de as transgredir, as reavaliar e modificar. O ser humano está sempre reformulando seus princípios de conduta, pois até mesmo o sentido da conduta humana não foi definitivamente estabelecido e universalmente admitido pelos homens. E assim, a ignorância que temos acerca do mundo, da realidade, da existência, é o impulso para buscarmos por verdades, por referenciais que sustentem e justifiquem um certo modelo de conduta. O exemplo disso é o estado de “metamorfose ambulante” que o ser humano pode criar para si; uns mudam de religião, outros lêem filosofia, deixando de acreditar em certas coisas e assumindo outras crenças, estabelecendo constantemente outras formas de perceber a realidade.
Enfim, o estado de ignorância no qual inicia o homem sua existência, lhe permite ter a curiosidade de conhecer o mundo e a si mesmo, e buscar um sentido para sua própria conduta. Dessa forma, a curiosidade serve como um motor para a ressignificação humana dos fenômenos que constituem sua existência. A maneira como entendemos o mundo interfere necessariamente na maneira como agimos no mundo. E, assim como entender a existência é uma dificuldade, fundamentar a ação e agir de uma forma constante e determinada, é também um desafio da natureza humana. O conflito entre a ignorância e o conhecimento, o ser e o não-ser, é um dos aspectos que constituem e caracterizam a natureza humana, e serve de referência para justificarmos também o conflito do dever ser.


notas explicativas:

1 ordem:Entendida aqui como um sistema em que se apresenta um certo conjunto de regras, normas, que regulam determinados fenômenos. Nesse caso, refere-se ao plano da moral.
2 Vontade que tem sua gênese na dimensão intelectiva do ser humano, que pode ser entendida aqui como a curiosidade natural humana, e sua postura especulativa, teórica, científica, religiosa e filosófica.

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