1.9.05

Greves e mares

O que acontece quando identificamos as greves por meio de datas? Os malefícios não são poucos: elas passam a ser acontecimentos sócio-históricos fracos, na medida em que o tempo é visto como um mero indexador na linha: "fora quem está no governo." Há uma vaga referência ao “movimento”, mas que no nosso caso é semelhante ao dos mares e marés. A identificação por meio de datas evita a discussão das características da greve, de sua identidade através do espaço e do tempo, de uma relação forte com a história social e política. Mais ainda: cria a ficção de um objeto estável, cuja essência estaria garantida em algum lugar (incerto) da literatura sobre o movimento operário. Na frase que citei como exemplo tudo aquilo que se segue à virgula depois do ano da greve x faz parte da identidade daquela greve (e isso se aplica a todas as demais) e possui uma relação substantiva com aquele momento. Caso contrário, não temos um objeto sócio-histórico e podemos nos referir às greves como se fossem safras de uvas!
“Greve” é um desses conceitos que toma uma parte de seu sentido dos contextos e conjunturas em que é aplicado; a outra parte é tomada da história do movimento operário e sindical. É certo que podemos introduzir novos elementos no conceito, nos momentos adequados. Mas não há limites para isso? Creio que não é por acaso que nas assembléias dos sindicatos não se faz mais aquilo que se chamava antigamente de “avaliação de conjuntura”. Aquelas que são apresentadas nas assembléias são cozidos e requentados pratos de ficção política.

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