1.9.05

'A minha voz continua a mesma, mas os meus cabelos..."

Qual é a definição de "Universidade" adequada para as greves' que ali ocorrem? Se nossas “greves” querem dizer “parar a Universidade”, é óbvio que nunca fizemos nenhuma greve, desde os anos setenta, mesmo que todos os professores tenham parado todas as aulas de graduação. O que fazemos, desde o início, é parar e adiar por algumas semanas as aulas que damos para os cursos de graduação. Até 1985 isso era tolerado e não nos perturbava porque não apenas havia uma ditadura a ser combatida, havia um Estado de Direito a ser alcançado. E, o que é mais importante, apenas se erguia o sistema de pesquisa e pós-graduação.
Se paramos para pensar no que mudou na Universidade fica claro porque algumas pessoas consideram nossas greves, de uns tempos para cá, como pequenas farsas, encenações de hipocrisia e cinismo: a UFSM tem dois mil alunos de pós-graduação, tem centenas de bolsas de estudo do CNPq e da CAPES, tem prazos rígidos para a conclusão dos mestrados e doutorados, tem milhões de reais em financiamentos de pesquisa, e isso não pode parar. São os altos-fornos que não podem ser desligados. Assim, na medida em que foi crescendo o sistema de pós-graduação e pesquisa, o simplismo de parar as aulas (que fazia algum sentido no contexto de enfraquecimento da ditadura militar) deu lugar ao cinismo de parar as aulas da graduação (algumas da especialização, quem sabe, ou de algum mestrado teórico que até pode parar algumas aulas, desde que não ocorra prejuízo do calendário da pós, pois que a Capes está aí para cortar as bolsas); nossos estudantes de graduação passaram a ser a cota de sacrifício que usamos para encenar para a grande imprensa o drama do ensino público e gratuito. O diabo é que nossos atores estão desconfiando do papel que lhes toca, pois alguns acham que o limite entre o drama e a farsa cada vez é menor. O povo, como todos sabemos, é bobo, e acha que o nosso privilégio de parar por três meses sem perda de um centavo está muito certo e bem, pois afinal a gente depois repõe a produção, não é mesmo?
O pior cego? É o que quer ver. Se a realidade institucional mudou, se caiu neve em seus cabelos mas seu discurso continua o mesmo, há uma boa chance de você enfrentar problemas de relacionamento com essa coisa meio fora de moda que é a tal da realidade.

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