16.9.05

O Tempo na filosofia e na literatura

Oscar Wilde tratou de temas como o Belo e o Tempo em sua obra, de 1890, intitulada "O Retrato de Dorian Gray". Dorian, jovem de beleza invejável, passa, como Narciso, a adorar-se. Dessa forma, tem como seu maior inimigo o tempo. O que é, pois, o tempo? Esse ente que mostra a efemeridade de nossa existência? Que marca nossos corpos e faz nossas vidas esvaírem-se lentamente? A tentativa de responder a questão acima irei expor ulteriormente. Primeiro, ater-me-ei em relatar melhor o romance de Wilde.
Dorian, para burlar a ação corroedora de seu inimigo estaria disposto a pagar qualquer preço. Inclusive abdicando da própria alma. Mas, o que pereceria no lugar do seu corpo? Seu retrato. Uma pintura feita pelo artista Basil Hallward. Este é obcecado pela beleza de Dorian. Contempla-o como se estivesse rememorando o Belo platônico do Mundo das Idéias. Lorde Henry Wotton, amigo de Basil, desperta em Dorian a relutância à ação temporal. Este, de posse de seu retrato, faz com que essa pintura envelheça, ao invés do seu corpo. Assim, manter-se-ia eternamente jovem. Então, com o decorrer dos anos, o seu retrato envelhece. Por medo de que descubram seu segredo e pavor de olhar para seu rosto horripilante, decide dar um fim a tudo isso. Portando uma faca, dirige-se até o objeto de seu temor e lhe desfere um golpe. Após um estridente grito, seus empregados entram na sala onde estava e encontram "na parede o magnífico retrato do amo, como eles o tinham conhecido, em pleno apogeu da sua esplêndida mocidade e beleza. No chão, jazia o cadáver de um homem em traje de rigor, com uma faca cravada no peito. Ele estava lívido, enrugado e repugnante. Só pelos anéis é que suas criadas conseguiram identificá-lo"(p.177).
Voltemos ao tempo. O que é isto? Acredito ser algo único, mas que pode ser visto de duas formas distintas. Primeiro, o tempo é objetivo. Independe da existência dos seres humanos. Existia antes de nossa existência e bem provavelmente continuaria a existir se nossa raça se extinguisse. Por outro lado, quando considerada a existência do ser humano, este nada pode pensar fora do tempo (tampouco do espaço, como já bem disse Kant). Este é o caráter subjetivo do tempo. Kant afirmou que "estes (espaço e tempo) não são propriedades das coisas, mas propriedades nos nossos sentidos; não são propriedades objetivas, mas subjetivas" (Realidade e existência,2002,p.75). Concordo que nada pode ser pensado fora do tempo. Também que ele não é propriedade das coisas em si. Todavia, creio que o tempo existe por si só. Nós podemos utilizá-lo para fazer comparações temporais. Medir a duração. No entanto, este ente que pode auferir o fluxo de movimento e existência das coisas é absoluto. Existente por si só e anterior ao sujeito.
Quanto a eternidade do tempo, não a vislumbro. Não sei se existirá para sempre ou se sempre existiu. Tampouco se teve um início como em Memórias Póstumas de Brás Cubas. No capítulo VII dessa obra de Machado de Assis, a mãe Natureza ou Pandora mostra o início do tempo para Brás. O tempo, então, tem um início nessa ficção literária. Todavia, todo esse vôo em cima de um hipopótamo até o início dos séculos ocorreu no delírio do personagem central. Porém, é importante frisar duas passagens que são bastante elucidativas: "Imagina tu, leitor, uma redução dos séculos, e um desfilar de todos eles, as raças todas, todas as paixões, os tumultos dos impérios, a guerra dos apetites e dos ódios, a destruição recíproca dos seres e das coisas"(p.29), onde Machado dá a entender que o tempo possui sua gênese; e "Não importa ao tempo o minuto que passa, mas o minuto que vem. O minuto que vem é forte,(...), supõe trazer em si a eternidade, e traz a morte, e perece como o outro, mas o tempo subsiste" (p.28). Aqui podemos notar que o tempo é eterno. Além disso, o seu fluxo influi no padecimento da matéria. Traz a velhice, a morte. Mas não perde sua eternidade.
Quanto ao lapso temporal com que medimos a existência das coisas adoto a postura de Descartes, no que chama de duração. Em sua obra "Os Princípios da Filosofia" ele expõe que "a duração de cada coisa é um modo ou maneira como consideramos essa coisa enquanto ela continua a ser" (p.91).
Em resumo, fazendo uma análise com o romance de Oscar Wilde, Dorian Gray abominava os efeitos ocorridos com a passagem do tempo. O tempo em si não deixou de ser duração. Tampouco parou de existir. Dorian cedeu ao tempo. O tempo subsiste.



BIBLIOGRAFIA UTILIZADA:
ASSIS, Machado de. Memórias Póstumas de Brás Cubas.Editora Expressão e Cultura;
BLACKBURN, Simon. Dicionário de Filosofia. – Rio de Janeiro, Jorge Zahar Editor, 1997.
CAYGILL, Howard. Dicionário de Kant. – Rio de Janeiro, Jorge Zahar Editor;
COMTE-SPONVILLE, André. Apresentação da Filosofia. Tradução: Eduardo Brandão – São Paulo: Martins Fontes, 2002;
DESCARTES, René. Os Princípios da Filosofia. Guimarães Editores, Lisboa, 1998;
PLATÂO. A República. Coleção Os Pensadores, Editora Nova Cultural;
WILDE, Oscar. O Retrato de Dorian Gray. Tradução: Pietro Nassetti;Martin Claret;

1 Comments:

Blogger Patricia said...

Li teu texto. Meus parabéns, está muito bom. Fora a vasta bibliografia utilizada, você fez uma análise filosófica ótima da obra de Oscar Wilde, além de utilizar-se da obra do Machado. Muito bom.

quinta-feira, setembro 22, 2005 6:00:00 PM  

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