17.9.05

PALAVRAS CORDIAIS

O fragmento abaixo é do texto “O Homem Cordial”. Texto que corresponde à segunda fase do modernismo no Brasil. Um ensaio de Sérgio Buarque de Holanda, publicado em 1936 e faz parte de um conjunto de obras resultantes do esforço de desvendamento da realidade brasileira daquela época.
Nesse texto, Buarque de Holanda procura desvendar os principais aspectos da “cordialidade do brasileiro” e ainda, suas manifestações. E faz uma análise das mesmas. Consideraremos o seguinte fragmento:
“No domínio da lingüística, para citar um exemplo, esse modo de ser parece refletir-se em nosso pendor acentuado para o emprego dos diminutivos. A terminação “inho”, aposta as palavras, serve para nos familiarizar mais com as pessoas ou os objetos e, ao mesmo tempo, para lhes dar relevo. É a maneira de fazê-los mais acessíveis aos sentidos e também de aproximá-los ao coração.”.
Ora, vemos aqui um dos temas estudados por autores que pesquisam problemas de lógica e de linguagem. O emprego do sufixo ”-inho” é uma das formas da linguagem que faz uso de uma função expressiva e de certa forma diretiva. Utilizo-me aqui de uma divisão simples, porém elucidativa das formas do discurso para o que pretendo. A linguagem tem uma função expressiva, quando é usada para dar expansão a sentimentos e emoções, ou para comunicá-los. E serve a uma função diretiva quando usada com o propósito de causar ou impedir uma ação. E aqui o emprego de um diminutivo pode ser decisivo.
Quando uma mãe diz ao seu filho pequeno que lave as mãos antes de comer não pretende transmitir informação alguma nem expressar ou suscitar qualquer emoção particular. Sua linguagem pretende obter resultado, causar uma ação do tipo indicado. Quando essa mesma mãe pede a um lojista, por exemplo, que mande certas mercadorias a sua casa, está usando a linguagem diretivamente, uma vez mais, para produzir uma ação. A diferença entre uma ordem e um pedido é bastante sutil, pois qualquer ordem pode ser traduzida num pedido se lhe adicionarmos as palavras, ”por favor”, ou mediante alterações adequadas na expressão facial, no tom da voz ou na maneira de colocarmos as palavras. Como, por exemplo, em vez de falarmos um “Me ajude!”, falarmos “Me dá uma ajudinha, por favor!”.
Poucos somos os que nos encontramos, reciprocamente, na relação de pai para filho ou de patrão para empregado. E fora do contexto de relações formais como estas, não podemos esperar sermos obedecidos pelo simples fato de darmos uma ordem. Por conseguinte, temos que empregar certos rodeios, porque uma ordem nua e crua provocaria antagonismo e ressentimento e frustraria sua própria finalidade. Habitualmente, não podemos provocar uma ação apenas proferindo um imperativo; é necessário utilizar um método mais sutil para estimular a ação desejada; e o diminutivo da pressuposta cordialidade do brasileiro é um deles. Ou ainda, quando a criança vai pedir alguma coisa para sua mãe e,em vez de começar a frase com “Mãe...” o faz com “Mãezinha...”, com certeza as chances de sucesso seriam bem maiores.
Ninguém pode esperar que lhe obedeçam mediante uma simples ordem, mas poderá conseguir que atuem de maneira desejada se despertar neles, de algum modo, um sentimento ou uma emoção, suficientemente justificados.

1 Comments:

Blogger Prof. Ronai said...

A proposta é bem interessante. Devemos relevar, no entanto, que o texto que serviu de ponto de partida é de cunho sociológico, e não literário, como previsto. Mas de resto a aplicação feita ficou dentro do espírito da tarefa. Precisamos rever pontuaçao e artigos.

quinta-feira, setembro 22, 2005 9:54:00 PM  

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