8.9.05

Para onde vou quando me distancio de mim mesmo?

Em seu livro "Convite à Filosofia", Marilena Chauí caracteriza a atitude filosófica a partir daquilo que ela julga serem alguns dos traços relevantes de nossa vida como homens comuns. No cotidiano vivemos a partir de um conjunto de crenças que não questionamos, de “aceitações tácitas”, de “crenças silenciosas”, de “crenças e sentimentos que alimentam silenciosamente nossa existência”. A filosofia, diz Marilena, consiste na atitude de “não aceitar como óbvias e evidentes as coisas, as idéias, os fatos, as situações, os valores, os comportamentos de nossa existência cotidiana, em jamais aceitá-los sem antes havê-los investigado e compreendido”. Assim, a primeira característica da atitude filosófica é de natureza negativa; consiste em dizer não ao senso comum, aos pré-conceitos, aos pré-juízos, aos fatos e idéias da experiência cotidiana. E a forma desse questionamento, continua, é a passagem da pergunta “Que horas são?” para uma pergunta como “Que é o tempo?”.
A lista de temas que ela apresenta a seguir é longa: tempo, sonho, loucura, razão, causa, efeito, objetividade, subjetividade, mais, menos, belo, verdade, falso, erro, mentira, ilusão, amor, desejo, sentimento, quantidade, qualidade, valor, moral, arte, vontade, liberdade. Observe que a lista poderia facilmente ser aumentada, usando-se o mesmo critério que salta ao olhos quando examinamos a relação que ela apresenta: Marilena lista alguns conceitos fundamentais que não pertencem a esta ou aquela ciência ou dimensão da experiência humana, mas sim à experiência humana, ponto.
E o que é, segundo ela, a atitude filosófica. Ela consiste em um processo de “tomar distância de si mesmo e da vida cotidiana”, num “interrogar a si mesmo”. Agora se pergunte: o que é esse “si mesmo”? Qual a natureza desse auto-conhecimento prometido pela filosofia? Quais são as perguntas que eu faço para mim mesmo? E como as respondo? Descobrirei alguns fatos novos sobre minha biografia? Isso parece pouco plausível, pois nos remete para o campo da psicologia. Qual é então a natureza desse conhecimento de si que a filosofia promete, desde os tempos de Sócrates? E mais ainda: para onde vamos quando nos distanciamos de nós mesmos? Se ainda não temos uma noção sobre esse lugar, ao menos temos uma idéia das técnicas que podemos usar para nos distanciar de nós mesmos, em um sentido não estritamente autobiográfico. Trata-se, como vimos, da suspensão de nossos juízos ordinários de primeira ordem, para se tematizar os conceitos que neles usávamos de forma “tácita”. Temos assim um avanço na explicitação dos mecanismos de análise e argumentação que nos permitem transformar as crenças silenciosas em “compreensão”, “investigação”. Sabemos também que precisamos investigar mais as relações da filosofia com a psicologia. É nessa direção que precisamos pensar a natureza da didática, seja para a filosofia, seja para as demais áreas. Precisamos investigar melhor os mecanismos que mostram que um conceito que desempenha um papel operatório num caso, passa a ter o lugar de conceito-objeto em outro. Esse mecanismo é característico e decisivo para a tarefa humana de conceituação da realidade, pois é ele que arma a estrutura lógica (e psicológica) da capacidade de pensamento crítico. O que ppdemos pensar sobre esse vagar para longe de si mesmo? Uma coisa é certa, quando isso nos acontece nos sentimos perdidos.

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