22.9.05

Questões Gerais Acerca do Filme Laranja Mecânica

Stanley Kubrick: célebre iconoclasta, grande entusiasta e um obsessivo exagerado na busca da disposição perfeita dos elementos os quais compõe uma obra cinematográfica. Seguramente Kubrick deixou-nos um legado rico de formas as quais são, até o momento, fontes inesgotáveis de discussão. Dentre suas grandes obras, a qual disputa juntamente com “2001: Uma Odisséia No Espaço” a posição de obra prima do autor, reside o filme chamado “Laranja Mecânica”. O mesmo é uma adaptação para as telas do romance de Anthony Burgess, lingüista inglês de notável gênio criativo. Kubrick recria com fidelidade o obscuro contexto presente no romance, que é constituído por um caráter opressor, recheado de neologismos e metáforas à sociedade humana moderna. Acerca do filme Laranja Mecânica que farei minhas considerações de natureza filosóficas.
As razões pelas quais deter-me-ei a analisar um filme são particularmente, a saber, o caráter popular dos produtos cinematográficos e seu respectivo alcance diante do público em geral (embora filmes fora do eixo Hollywood não gozem de grande status ficando excluído quase de antemão o acesso de obras externas a grande indústria ao público geral) e pelo possível aspecto reflexivo que pode ter o cinema, podendo assim ser uma poderosa ferramenta de trabalho aos profissionais do ensino. Além do mais o cinema possui a peculiaridade de trabalhar tanto com elementos sonoros quanto com elementos figurativos. Seja o cinema reprodução ou criação da vida, é de grande valia para o universo cultural humano e sua compreensão. Sendo essas as razões do intento, passo agora a remontar os aspectos centrais do romance “Laranja Mecânica”.
Numa sociedade não muito distante, onde o papel da família na constituição do éthos do indivíduo é delegado a assistentes sociais, onde o “espetáculo” da violência atinge um grau elevado, seja praticado ele por indivíduos e suas confrarias ou pelo estado, residem os protagonistas dessa estória. Alex e seus droogs - termo utilizado para designar seus comparsas-, são jovens de classe média, matriculados na escola e aparentemente dotados de boa saúde. Essa pequena sociedade é motivada por interesses bizarros: assaltos a residências, consumo de moloko com sintesmeque (droga estimulante de efeito similar à cocaína) e a prática chamada pelos mesmos de “good and old ultraviolence”.
Ao embalo de composições beethovianas, o grupo liderado por Alex parte em busca de diversão para eles entendida como “horrorshow”. A música de Beethoven que tanto apetece ao Alex e rege suas cenas de violência e sexo, pode causar a falsa idéia ao receptor de que o filme associa o triunfo e a idéia de sublimidade das belas composições clássicas com uma certa apologia ou violência gratuita ou amoral. Tal leitura mostra-se ingênua após um olhar mais atento ao filme. Pois o que se mostra em segundo plano é a crítica de violência pela violência, por mais contraditória que pareça.
Não há mais volta, os feitos do bando assumem os diários e os noticiários. Ao passo que práticas do grupo vão assumindo dimensões maiores, o que culmina na morte de uma vítima e em outros danos irreparáveis, Alex é vítima de seu próprio bando. Meio a um assalto à casa de uma senhora rica, seus droogs o deixam a mercê da polícia, que acaba detendo-o. Agora detento de uma penitenciária, Alex terá de pagar pelos seus atos. Condenado a vários anos de prisão, Alex, por medida de desespero frente sua perda de liberdade, assume uma postura ética “exemplar” na cadeia, e acaba como forma de proteção e de uma possível redução de pena a aproximar-se do padre, e vira seu assessor e pupilo dedicado. Alguns meses de detenção e a esperança de constitui-se novamente livre, é isso que Alex possui até receber a grande notícia: Fora escolhido pelo Ministério de Segurança a participar de um programa de reabilitação de marginais, um programa de reeducação chamado Ludovico. Tal método consiste basicamente na aplicação de práticas behaivoristas, método largamente utilizado e bem quisto na época que o Burgess escreveu o livro. É interessante comentar a clara menção no filme a noções e a figuras claramente centrais nas teorias de Psicologia do séc. XX, como a Psicanálise e o próprio Comportamentalismo.
Seguindo, após as seções “corretivas” no nosso jovem protagonista, onde lhe eram injetadas drogas que causavam mal estar, ao mesmo passo que lhe exibiam filmes de violência e sexo, causando e ele a associação do mal estar físico com a violência e sexo. Despretensiosamente o jovem foi condicionado também a rejeitar a música que desde sempre foi de seu bom grado, a Nona Sinfonia de Beethoven.
Agora “curado”, Alex está “livre” novamente. Só que para seu desencanto ao voltar a sua casa, seus pais haviam adotado outro filho. Ao voltar ao lar reencontrara talvez o berço de sua desgraça, um pai figura apagada, que não havia representado uma trava para os excessos do garoto, e uma mãe que assentia apenas seu gosto pelo filho, mas fraca para agir em confronto com o filho. Agora já não restava mais lugar para aquele jovem embora “consertado” no fundo ainda era um estigmatizado. E de tão estigmatizado passou a ser vítima dos que outrora oprimiu e violentou. Acaba Alex, por acaso no quarto do marido de uma vítima sua, o qual descobre o processo de condicionamento pelo qual Alex foi afetado, planejando assim trancá-lo num quarto e reproduzir a nona sinfonia de Beethoven visando o mal estar do garoto, como que numa vingança pelos prejuízos que havia lhe causado. O resultado é que Alex, por náusea e o mal estar não suporta as respostas que tem ao ser estimulado pela música, e acaba por desespero tentando por fim a própria vida. O que quase efetua.
O protagonista desde o início afastado da simpatia dos receptores por seus atos desmedidos e bárbaros, agora é vítima, vítima do estado, da família (talvez tenha sempre sido) e dos que outrora eram vítimas.
Por fim pergunta-se, onde reside a liberdade do indivíduo na medida em que ele nega-se a si próprio? Subsiste o sujeito desprovido de vontade e de suas pulsões? Pode o estado detentor da coruja do conhecimento aplicar tais padrões regulativos (leia-se Behaviorismo) por uma vaga idéia de bem moral? Existe moralidade do estado diante do indivíduo? De quem é o peso social da violência, apenas de quem carrega suas marcas? Qual a linha divisória entre métodos “corretivos” e regimes totalitários?Contudo, parecem essas ser algumas das questões filosóficas instigadas por essa obra sensacional de Kubrick, que ao meu ver constitui um sério manual de política e ética, e como disse anteriormente podem ser fontes valiosas de reflexão.

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