15.9.05

Um Homem “Célebre"? Para Quem? *

Cinco de Novembro de 1875, rua do Areal. Acontecia nessa data e nesse local um sarau íntimo para as pessoas que haviam ido jantar com a viúva Camargo, que completava anos nesse dia. Aí se encontrava o Sr. Pestana, compositor de polcas dignas de louvor admiradas por todo o povo. Em poucos segundos, a viúva, que tinha sessenta anos e amava o riso e a folga, pediu-lhe que tocasse uma quadrilha! Pestana curvou-se gentilmente, e correu ao piano. Ao fim da quadrilha, não deu tempo nem das pessoas que se divertiam com a música descansarem dez minutos, e a viúva correu novamente ao Pestana para um obséquio mui particular.

- Diga, minha senhora.
- É que queremos agora aquela sua polca Não bula comigo, nhonhô.

Pestana fez uma careta, mas dissimulou depressa, inclinou-se calado, sem gentileza, e foi para o piano, sem entusiasmo. Ouvidos os primeiros compassos, derramou-se pela sala uma alegria nova, e os pares entraram a saracotear a polca da moda. O alvoroço, então, de algumas damas, como sinhazinha Mota, quando descobriram que o intérprete das polcas era o mesmo que às compunha, foi grande! Largos gestos admirativos foram oferecidos. Só que Pestana, vexado, não via a hora de sair de lá. Por mais que não quisessem que ele saísse, foi embora. Enquanto voltava para casa, ouvia assobiar em algum lugar outra polca sua. Desesperado, não via a hora de chegar em casa, na rua do Aterrado.

Em casa, respirou. Casa velha, escada velha, um preto velho que o servia. Pediu um café ao criado e foi para a sala dos fundos, onde se encontravam vários retratos pendurados na parede. Um de seu tutor, um padre que o educou. Mas a maioria de compositores clássicos. Cimorosa, Mozart, Beethoven, dentre outros. Ficava pensando por que não fazia uma só obra que fosse como a dos grandes mestres – imortais. Sentava em frente ao piano, tocava-o às vezes com sutileza e outras com rispidez, de qualquer forma, a inspiração para esse tipo de composição nunca chegava. Tudo aconteceu em uma mesma noite.

Na manhã seguinte, quando estava para sair, Pestana simplesmente correu inesperadamente à sala dos retratos, abriu o piano, sentou-se e espalmou as mãos no teclado. Começou a tocar alguma coisa própria, uma inspiração real e pronta, uma polca. A polca, depois de acabada, por todos foi considerada uma obra digna de louvor.

De qualquer forma, esse “namoro” que teve com a nova polca durou pouco. Pestana se martirizava por não compor uma obra como a dos grandes mestres; por mais que tentasse. Por outro lado, sua vocação o levava para o lado das polcas. Estas sim! Eram obras criadas com inspiração; admiradas por todos. Em todo canto havia alguém assobiando ou interpretando as famosas polcas dele. Vivia um eterno dilema entre a ambição e a vocação.

Isso o fez perder vários momentos que poderiam ter sido melhores. Poderia ter desfrutado uma vida que, para muitos, seria perfeita! Entretanto, sua tristeza por não compor alguma obra clássica que o pusesse entre nomes como o de Bach e Schumann o tornava infeliz.

A pergunta que Pestana se fez naquela noite, na sua sala velha com os retratos dos grandes compositores – de “por que não fazia uma só obra que fosse imortal?”, poderia ser reformulada de forma geral, da seguinte maneira: Por que, em geral, nunca estamos satisfeitos com o que temos? Tanto individualmente quanto na relação com os outros.

Individualmente, porque essa “dor-de-cotovelo” corrói a felicidade e cega qualquer homem para o que ele tem. Bem, talvez o objetivo de Pestana fosse apenas a glória. Entretanto, sua fama dera-lhe definitivamente o primeiro lugar entre os compositores de polcas. E isso não o satisfazia. Como disse Machado de Assis, “o primeiro lugar da aldeia não contentava a este César”. Possivelmente o objetivo de Pestana nem fosse glória ou reconhecimento, tanto que ele tinha pavor quando alguém o abordava por causa de suas polcas. O fato é que ele foi triste por não ter vocação para compor obras clássicas.

Em geral, nunca estamos contentes com o que temos ou que já conquistamos. Este tipo de mentalidade interfere diretamente em nossas vidas; e na dos outros também. Várias são as conseqüências que podem surgir daí. Citarei uma que acredito ser central: a individualidade. Por que ela? Porque, ao buscarmos sempre mais e mais (independente se for no campo material ou afetivo; individual ou coletivo), nos tornamos às vezes mesquinhos e egoístas conosco e com os outros. Não cabe aqui discutir se o fato de termos sidos formados assim é culpa de nossos pais ou de toda uma estruturação social em que a individualidade impera. O fato é que nossas relações conosco e com os outros, na maioria das vezes, são assim.

Ou seja, na tentativa de nos auto-satisfazermos, impomos nossas vontades aos outros. Há como conviver harmoniosamente em um lugar assim? Engraçado que nos pedem para sermos cordiais e solidários com os outros, mas nos criaram baixo uma mentalidade materialista e individualista. Mentalidade em que outras pessoas impõem o que devemos ser e fazer. Não nos dão tempo nem espaço para decidirmos por nós mesmos nosso destino. Mas se os outros não sabem nem o que é bom para eles mesmos, como querer que nós sigamos o que julgam ser bom ou não?

Claro que o fato de sermos autônomos nesse aspecto não quer dizer que devamos ficar revoltados com tudo e com todos. Apenas que temos que caminhar sozinhos. E aprender a lidar com isso, já que somos acomodados com as crenças e valores que temos. Na medida do possível, tentar estimular um pouco a autonomia em outros indivíduos, mas essa é outra história: longa e complicada.

Voltando à questão do tristonho Pestana, e trazendo para nosso contexto, essa busca louca por coisas que não temos faz-nos esquecer das coisas boas que possuímos. Acredito que muitas vezes somos incitados a buscar por mais e mais coisas, por causa de valores ditos bons por outras pessoas. Daí a necessidade de cada um refletir acerca das informações onde existem, como um verme em uma goiaba, princípios e valores imbuídos. Não é necessário comentar que seria ingenuidade acreditar que os valores ditos bons pelos outros nem sempre são tão bons assim.

Quiçá é por isso que Pestana não se contentava nunca com o dom que tinha. Visto que fora educado por um padre (douto em música, sacra ou profana), que lhe ensinara latim e música. Talvez por sua influência Pestana tenha assimilado certos valores e ambições sobre o que seria “música de verdade”. Ou por quais tipos de obras ele gostaria de ser valorizado. Nunca parou para refletir sobre sua vocação; sobre o bem que fazia para as pessoas, através da alegria que sua notável inspiração provocava através das suas polcas.

Paremos para refletir sobre nossos valores! Paremos para analisar nossos dons! Em uma sociedade individualista em que, na primeira esquina alguém pode nos “passar a perna”, essa é uma atividade extremamente importante, para, de fato, construirmos uma sociedade mais solidária.

Pena que Pestana não percebeu isso a tempo! Pois morreu triste no seu leito, sem nunca ter alcançado sua tão sonhada ambição. Expirou sem perceber (ou não se interessar) pelo quanto sua obra fazia bem aos outros. Talvez esse fosse um bom argumento para ser feliz.

Ele já era célebre, só que não entendia o significado da palavra. Faleceu de mal consigo mesmo.

Jorge Robespierre Tomás Japur


* do conto "Um Homem Célebre", de Machado de Assis. Extraído de ASSIS, Machado de. Contos Escolhidos. São Paulo: Ed. Martin Claret, 2003.

5 Comments:

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