9.9.05

Uma visão filosófica de Fernando Pessoa

O aprimoramento, a diversidade, a busca pela interdisciplinariedade é o que mais se procura hoje na Educação. E a Filosofia, como a mais antiga e mãe de todas as ciências, não pode ser diferente. Nós, como futuros professores de Filosofia, teremos que encarar os problemas que encontraremos dessa disciplina numa Escola, e sabermos aproveitar toda sua abrangência e liberdade de expressão, pois a Filosofia está em tudo, basta saber identificar os tópicos e trabalhar em cima disso. Como exemplo, desse poder de interdisciplinariedade que a Filosofia possui, irei trabalhar com o poema "Tabacaria" de Fernando Pessoa, e mostrarei que elementos filosóficos podem ser encontrados nesse poema.
Primeiramente, irei falar um pouco de seu grande autor, Fernando Pessoa. Fernando Antônio Nogueira Pessoa nasceu em Lisboa, em 13 de Junho de 1888, o qual desde sua infância encontrava refúgio no seu isolamento, na sua imaginação e tinha uma forte atração pela ficção. Dedicou-se as ciências humanas e políticas, à escrita e ao estudo de Filosofia, envolvendo-se em muitas discussões da época. Fernando Pessoa buscava incansavelmente uma qualquer verdade para juntar a sua identidade dispersa e complexa. Encontramos na sua poética uma crise do conhecimento acessível do "eu". Pessoa considerava a Filosofia uma arte, e ele mesmo se auto-descrevia: "Eu era um poeta impulsionado pela filosofia, não um filósofo dotado de faculdades poéticas." Em suas poesias, Fernando Pessoa, coloca-se interrogações acerca do Ser, o Estar-no-Mundo e o Conhecer.
Encontram-se, no poema "Tabacaria", aspectos filosóficos como: a sinceridade, a dúvida do "eu", a noção de realidade, a estranheza da existência, o Tempo, a Morte, o Destino, aspectos estes, que marcam não só esse poema, mas todo o processo poético Fernandiano.
Um aspecto muito importante, encontrado nos poemas de Fernando Pessoa é a Heteronímia, onde ele se anula como "Fernando Pessoa" e utiliza heterônimos, que são distintos estados de consciência, expressando diferentes visões, mostrando, assim, fortemente a dialética existente entre o "eu pessoal" e o "eu poético". Fernando Pessoa assume heterônimos como Alberto Caeiro, Ricardo Reis e Álvaro de Campos, autor de "Tabacaria". Todos possuem suas características pessoais, seus estilos de vida, são dedicados à problemas diferentes onde cada heterônimo é uma entidade autônoma. Esse aspecto é uma característica da despersonalização que Fernando Pessoa possuía, que pode ter sido causada, não só por causas psicológicas, mas também pelo intenso estudo e reflexões estéticas e filosóficas que fazia na sua vida, pois assim, ao mesmo tempo ele é um só e muitos, desdobrando-se em várias personalidades. Portanto, em suas poesias, não temos como saber a verdadeira face de Fernando Pessoa, e se realmente é "ele mesmo". Pessoa viveu não apenas uma existência, mas várias, acreditando serem tão suas quanto a própria, que talvez nem a teve.
O heterônimo, Álvaro de Campos, autor de "Tabacaria", é tido como o poeta moderno da dialética fundamental (poeta x poesia), tentando conhecer as antinomias latentes no novo ser-forjado-pela-civilização. Porém, todas as diferentes faces de Fernando Pessoa assumem uma mesma postura: estão voltados para uma determinada investigação do Real. Os heterônimos são como metáforas, instrumentos, "sujeitos", por meio dos quais é possível conhecer a complexidade do real.
No próprio poema "Tabacaria", Fernando Pessoa já expressa essa despersonalização, indagando sobre o ser de si mesmo:
"Não sou nada
Nunca serei nada.
Não posso querer ser nada..."

Ou ainda:
"Que sei eu do que serei, eu que não sei o que sou?
Ser o que penso? Mas penso tanta coisa!(...)"
A "máscara", que ele também cita no poema, é outro ponto que marca esse questionamento do "eu", e até talvez, ele queira mostrar que a visão que temos do mundo é mascarada. Fernando Pessoa usa o mascaramento como um processo de mistificação, onde oculta-se através delas, para melhor revelar-se, mas isso exige uma trabalho muito árduo do leitor, para tentar identificar que espécie de informação ele quer passar.
A Sensibilidade também marca este poema, como uma possibilidade ou não de conhecimento, onde se sente, não talvez porque sente, mas porque pensa que sente, como se o sentir fosse sinônimo de pensar e vice-versa; onde sem a sensação não há ser, nem o existir, é nesse ponto que há o jogo entre ser e não-ser. Fernando Pessoa reside toda sua poesia no pensamento, pode-se dizer que Pessoa explica as relações entre o eu e o mundo, tendo em vista o sentir, pensar e conhecer de base kantiana, se questionando: "Como saber se a sensibilidade, as sensações ou as intuições tem realmente formas a priori? Como saber se essas formas foram intuídas e não, simplesmente inventadas por mim? Ou ainda, até que ponto as palavras expressam com autenticidade o pensamento?" Questões como essas podem ser respondidas, muitas vezes, no decorrer de seus poemas.
Fernando Pessoa dá bastante importância a Mitologia, neste poema ele também a cita, pois a considera como perpetuante no tempo, e a utiliza para criar um pequeno universo mítico. A Morte também é um tópico presente no poema, é como um destino crucial desde o nascimento, Fernando Pessoa não fala só da morte do "homem", mas à utiliza no sentido metafórico, como uma morte do Mundo, do Universo. O destino é imutável, e o real é misterioso, onde existe muito mais coisas abaixo do que se vê (iceberg).
Encontra-se nesse poema o tédio, a náusea, visada por uma postura existencialista. Mas não foi só no existencialismo que Pessoa baseia seus escritos, mas também em autores como Shakespeare, Descartes, Kant, na filosofia alemã (com Schopenhauer e Nietzsche), praticamente em toda a gama de filósofos, desde os gregos até os Modernos.
Assim, pode se concluir que "Tabacaria" é um poema-síntese onde se detecta as múltiplas correntes que fluem no espaço poético pessoano. É um enigma estudar a múltipla bibliografia de Fernando Pessoa, pois é muito complexa, e onde por mais que saibamos sobre ele, podemos dizer que sabemos cada vez menos de todo seu enigma. Fernando Pessoa se debruça sobre si e sobre o mundo como se fossem seres incontáveis, mas tenta conhecer a realidade e aspira uma totalidade do Universo, buscando o Cosmos, e uma totalidade do Saber.
Não só esse poema pode ser trabalhado filosoficamente numa sala de aula, mas toda a literatura de Fernando Pessoa possui um fundo filosófico. Este tipo de atividade interdisciplinar, entre literatura e filosofia, é uma ótima maneira de introduzir um debate filosófico partindo de um campo que não seja a própria Filosofia. E como o próprio Fernando Pessoa dizia: "Viver não é necessário, o que é necessário é criar." Esta frase abre o caminho às possíveis e diferentes leituras da multiforme produção de Pessoa, pois o objetivo, não só de Fernando Pessoa, mas também de nós mesmos como futuros professores é de retirar o aluno/ leitor da visão estável do mundo, essa visão rotineira, para levá-lo a perceber uma outra existência.

Referência Bibliográfica:
Moisés, Massaud, FERNANDO PESSOA: o espelho e as esfinge, São Paulo, Cultrix: Ed. da Universidade de São Paulo, 1988.

5 Comments:

Blogger locoloca said...

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sábado, setembro 10, 2005 8:52:00 AM  
Blogger Jessica Klarkson said...

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domingo, setembro 11, 2005 7:08:00 PM  
Blogger geraldo fruet said...

li, e gostei do teu trabalho, voce sempre eficiente,( pois publicou no prazo estipulado e combinado entre o professor e os alunos) foi feliz na escolha do tema do teu ensaio, que aliás, ficou muito bom no sentido que explicita a sua opinião e a esplanação sobre a produção do autor.
Continue se dedicando.

domingo, setembro 11, 2005 7:20:00 PM  
Blogger Ronai Rocha said...

Cumprimentos à Debora, inaugurando o blogue!

segunda-feira, setembro 12, 2005 8:37:00 AM  
Blogger Jorge Robespierre Tomás Japur said...

Achei muito bom teu trabalho Débora. Para começar, a pesquisa que fizeste sobre Fernando Pessoa é enriquecedora para todos nós. Em sala de aula, possivelmente se fôssemos trabalhar poemas dele, teríamos que explicar quem foi Fernando Pessoa.

Os elementos do confilto do Ser com o não-ser que identificaste no trabalho auxiliam em uma possível forma de leitura dele.

quinta-feira, setembro 15, 2005 3:31:00 PM  

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