16.9.05

VIDA - Uma Estética de Si

A música do cantor e compositor Gonzaguinha O que é o que é contém várias frases as quais apresentam, entre outros temas, o aspecto filosófico enquanto uma estética de si. O autor diz que “... somos nós que fazemos a vida...”. Podemos pensar que tanto no sentido particular como no sentido geral somos nós que, dotados de razão e liberdade, fazemos as nossas escolhas e construímos os nossos valores e estilo de vida tanto como indivíduo quanto como grupo. Entretanto para criarmos nossos próprios valores, é preciso que sejamos independentes do grupo de modo a construir a nossa própria vida, sem que sejamos dominados pelos pensamentos e imposição de valores dos outros, e assim, vivamos de maneira criativa e crítica. Mais adiante o compositor diz “... viver e não ter a vergonha de ser feliz...”. Se somos nós que fazemos a vida de forma criativa e através da crítica e auto-crítica, nós somos capazes de construir conceitos e valores próprios sobre a vida e viver segundo um estilo próprio de acordo com o que pensamos. Através da beleza e do bem que admiramos e contemplamos, podemos enfeitar de beleza e encher de bondade a nossa própria vida, na medida em que somos capazes de agir segundo o que pensamos e escolhemos fazer.


Assim, viver, para os seres humanos, e buscar a felicidade são duas coisas que estão intrinsecamente ligadas. A felicidade, como um misto de bem e beleza que se exterioriza em alegria, é buscada por vários meios e não deixamos de buscá-la, porque além do instinto que temos de buscar a sobrevivência, ainda tem algo em nós que nos faz ir a busca de uma maneira de viver melhor e ser feliz. O desenvolvimento tanto intelectual quanto moral e a alegria de viver também não estão separados, a realização deste objetivo é que nos faz realizar a nossa essência e sermos felizes.


Mas o que é a vida? O que é a felicidade? Seria, a primeira, uma simples seqüência de nascimento, desenvolvimento e morte? A morte é o fim da vida ou é mais um acontecimento nela? E a felicidade, é algo a ser buscado ou é algo que se realiza nos pequenos prazeres diários? São perguntas que ficam sem respostas ou que são respondidas de tantas maneiras quanto queiramos construir nosso próprio modo de viver. Nietzsche aproximando a ética da estética criou uma reflexão sobre a moral que ia contra o pensamento dominante. Ele defendeu que “a moral é imposta por aqueles que possuem o poder de afirmação do bem e do mal”[1], portanto, segundo esse filósofo, os fracos são obrigados a aceitar o que os fortes acreditam que é o bem. Os fracos seriam aqueles que constituem uma consciência de rebanho, que são incapazes de criar e passam pela vida como se essa fosse um carma, como se esse fosse o seu destino e não têm o poder de mudá-lo, esperando como redenção do sofrimento, como libertação, a morte. Já os fortes seriam aqueles que têm o poder de criar o seu próprio estilo de vida, que são capazes de buscar o seu próprio bem no ato criativo, no uso de sua liberdade.


E então, a vida, ela é alegria ou lamento? Conforme o pensamento nietzscheano, a vida é alegria para aqueles que, no uso de sua liberdade, têm o poder de criar um estilo característico segundo valores próprios e viver de acordo com o que pensam ser o bem, de maneira a não cair na consciência de rebanho. A vida é lamento para estas pessoas que imersas em um grupo não conseguem tornar-se independentes dele, tornam-se máquinas que seguem um determinismo não-criativo, sofrendo com o que a vida não lhes presenteou e esperando pela morte que é vista como libertação. Por isso, somos nós que fazemos a vida, somos nós que, como seres humanos dotados de livre-arbítrio, escolhemos se permanecemos inativos sendo guiados ou influenciados por aqueles chamados fortes no uso de uma liberdade mínima de indiferença[2], ou escolhemos criar uma forma própria para a vida, construindo os próprios valores e projetando-nos em direção ao futuro com autonomia.


A vida é sempre desejada por mais que esteja errada. Todos querem a sobrevivência, seja criando seu próprio modo de viver e sendo livre no sentido mais amplo do termo, seja sendo guiado por um pensamento dominante e usando uma insignificante liberdade de indiferença e não de ação. Todos querem a felicidade, ou criando o seu próprio estilo de vida, ou sendo guiado pelo desejo de uma felicidade pós-morte, como redenção pós-sofrimento. A vida é sempre desejada e a felicidade sempre buscada, por mais que sejam tortuosos os empecilhos que se colocam como pedras no caminho. Algumas pessoas deixam-se abater pelos sofrimentos que avassalam alguns momentos da sua vida e esquecem do poder criativo que têm de mudar e construir um futuro novo. A criticidade faz parte da autonomia do ser humano que tem liberdade, livre escolha para criar, a partir da crítica e autocrítica, a sua vida e os seus valores.


Diz Foucault que “a crítica como componente da estética da existência tem como tarefa levar tão longe quanto possível o trabalho da liberdade”[3]. Como seres humanos livres devemos ter como tarefa constante criticar a nós mesmos, nossa relação com os outros e com a verdade. Não nos submetermos a uma verdade dada e a um modo de ser fixo pensando que somos seres imutáveis. Como já dizia Heráclito, todas as coisas estão em perpétuo devir, a esta regra, acredito, nem nós mesmos, dotados de liberdade, somos alheios. Portanto, podemos e devemos pensar e criticar nossos valores, nossa atitude frente à vida e aos outros, para criarmos a partir daí um novo estilo de vida e dar uma nova forma a ela. Ser um agente incansável diante os problemas que nos afligem é reconhecer os obstáculos e superá-los a partir da crítica e autocrítica, e desse modo, posicionarmo-nos como um perpétuo devir e eterno aprendiz. Na medida em que adotamos uma postura frente à vida, não de expectadores, mas como agentes criativos que superam os obstáculos com alegria, porque percebemo-los como oportunidades para aprender e reinventar a nossa vida.


Por isso, o desenvolvimento moral e intelectual está intrinsecamente ligado à alegria de viver, na medida em que a crítica se torna a chave libertadora do lamento ao qual estão confinados aqueles que não se libertam da sua própria indiferença frente ao já dado. Ser um eterno aprendiz é posicionar-se de modo crítico em todos os momentos da vida tal como a criança que pergunta “o que é...?” “por quê...?” e também enxerga beleza em tudo, cria suas próprias fantasias e brincadeiras. Os seres humanos autônomos podem criar seu próprio estilo de vida de modo crítico, sendo, desse modo, felizes por realizarem sua essência e se libertarem da indiferença daqueles que não reagem diante dos sofrimentos ou empecilhos que são oportunidades de repensar suas atitudes a fim de viver melhor: Viver e não ter a vergonha de ser feliz, viver e não ter a vergonha de ser diferente, de pensar diferente e de ser autônomo; viver e criar seus próprios valores, não seguir o já dado, criticar sua postura diante de si, dos outros e da verdade. Viver... e ser feliz!


E a vida? O que é? Gonzaguinha prefere a resposta das crianças, é bonita, é bonita e é bonita. Não quis ele dizer que vida é simples, indefinível e simplesmente o que mais importa é realizá-la com autonomia, felicidade e beleza?


[1] GALLO, Sílvio et. al. Ética e cidadania: caminhos da filosofia. 3ª ed., Campinas, SP: Papirus, 1998, p.97
[2] “Liberdade mínima de indiferença” significa dizer que alguém tem liberdade de agir, isto é, de escolher entre duas ou mais opções, mas prefere ficar indiferente, permanecer como está. Por isso, digo “mínima” porque todos os seres humanos são livres para fazer o que desejam, porém quando escolhem permanecer indiferentes, o uso que fazem de sua liberdade é insignificante.
[3] FOUCAULT, Michel. Arqueologia das ciências e História dos Sistemas de Pensamento. Rio de Janeiro: Forense Universitária. Coleção Ditos e Escritos, vol. II., 2000, p.348. in NASCIMENTO, Wanderson Flor do. Nos rastros de Foucault: Ética e Subjetivação, data: 08/09/2005, retirado de: http://www.unb.br/fe/tef/filoesco/foucault/art02.html

2 Comments:

Blogger TS said...

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sexta-feira, setembro 16, 2005 1:21:00 AM  
Blogger Patricia said...

Gostei muito da sua análise da música. Interessante os questionamentos que fizestes.

quinta-feira, setembro 22, 2005 6:11:00 PM  

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