14.10.05

Considerações na Prática do Ensino de Filosofia

Revisado

UNIVERSIDADE FEDERAL DE SANTA MARIA
CURSO DE GRADUAÇÃO EM FILOSOFIA
Disciplina Prática em Filosofia – 2º semestre/2005

Acadêmico Newton Palut Silveira Roballo




1 - Introdução

O seguinte trabalho objetiva antes de tudo, levantar questões que de algum modo poderiam ser tratadas em sala de aula pelos professores de filosofia, não com a profundidade teórica requerida, mas como uma pequena noção de quais sejam as preocupações da filosofia diante de temas e objetos clássicos e contemporâneos, os quais de alguma maneira permeiam a mente humana e se acham esquecidos diante das ânsias da juventude estudantil.
Para isso escolhi um poema sem preocupação com o conteúdo buscando a partir dele encontrar algo que pudesse de alguma maneira ser possível de reflexão para um futuro professor de filosofia. Resumidamente tomei o título do poema como sugestivo e procurei trabalhar seu conteúdo.


2 - Desenvolvimento

Retrato quase apagado em que se pode ver perfeitamente nada

Não tenho bens de acontecimento
O que não fazer desconto nas palavras
Entesouro frases. Por exemplo:
- Imagens são palavras que nos faltaram
- Poesia é a ocupação da palavra pela Imagem
- Poesia é a ocupação da Imagem pelo Ser.
Ai frases de pensar!
Pensar é uma pedreira. Estou sendo.
Me acho em petição de lata (frase encontrada no lixo).
Concluindo: há pessoas que se compõem de atos, ruídos, retratos.
Outras de palavras.
Poetas e tontos se compõem com palavras.

Manuel de Barros, O guardador de Águas, 3ª edição, Ed. Record, São Paulo, 2003, p.57


A escolha do poema acima como sugestão para investigação filosófica é apresentado, num primeiro momento, por indicar um grande leque de alíneas possíveis para tal. Poderíamos sugerir por exemplo a filosofia da linguagem, a Epistemologia, a Filosofia da arte, lógica, etc.. Procurarei no entanto dar um enfoque utilizando-se da ontologia, pois acredito que é uma das disciplinas que tem pouco ou nenhum espaço em sala de aula do ensino médio, permanecendo os estudantes contemporâneos com pouco ou nenhum contato com a filosofia que coloca a questão do “ser”, a qual persiste ainda com cerradas discussões filosóficas e fonte para novas linhas de investigação, inclusive científica.
O poema é sem dúvida uma metafísica, um discurso sobre o ser, ontologia.

“isto é, um meta-discurso sobre o discurso que o homem mantém sobre a experiência, a qual não pode ser senão uma experiência do ser”. (AUBENQUE, PIERRE. Onto-logique. In: Enciclopédie Philosophique Universalle, I. Paris, PUF, 1989. p.7. (texto traduzido para o português)

É permitido falar da intenção do autor relacionada a uma experiência empírica, pois refere-se a algo que cai sob nossa intuição, a qual pode ser tanto intelectual quanto sensível, desde que esteja imediatamente representada por nós como “ente”, em outras palavras, que podemos tornar de alguma forma “presente” como fato de linguagem e portanto, de comunicação, as quais pretendem, porém não o reproduzindo fielmente como o poema nos sugere: “Imagens são palavras que nos faltam”, para indicar que o ente simplesmente “é”, ou seja, de alguma maneira ele guarda em si seu próprio sujeito enquanto objeto do pensamento, ou ainda, cada vez que há ser há pensamento.
Por outro lado, como entender, “pensar é uma pedreira. Estou sendo”. Esta frase não deve apoiar-se sobre as intuições ali representadas em sentido literal, mas mesmo assim, ainda implica em uma afirmação; mas qual?
É, em medida, a colocação que faz AUBENQUE (op. Cit., p.12): “como o pensamento pode pensar este “outro” que se encontra diante dele? Se todo conhecimento implica uma certa identificação entre o cognoscente e o conhecido, como pode o pensamento identificar-se à realidade em sua alteridade?”. Nessa fusão do pensamento com o ser, na possibilidade de “dizibilidade” e “pensabilidade”, que o poeta invoca com suas palavras, “Poesia é a ocupação da palavra com a Imagem”, como sendo um momento ontológico e metafísico, em que o pensamento procura dizer o ser considerando a mobilidade deste ser de não se deixar apanhar por completo, não esgotando todos os sentidos. É de considerar então, difícil apreender o núcleo eidético, que faz com que as palavras que utilizamos sejam como propõe o ser, unívocas da nossa linguagem e, por conseguinte, da comunicabilidade a ela atribuída. Talvez seja o que o poeta reclama ao dizer, “Poesia é a ocupação da Imagem pelo Ser”, como pressuposto do reconhecimento de algo que sobrevêm da impureza do ser relativamente as imagens representadas por nós, o ser não tem nesse sentido um referente, ele se confunde com a compreensão que temos dele, mas ainda assim, “o ser é aquilo no que o pensamento se diz, e fora do que não se poderia encontrar o pensamento”, é no entanto a identificação do ser, do pensamento e do lógos num único momento. A proposição implica a afirmação de sua verdade e portanto, “uma verdade do pensamento”, como diria Parmênides.
Mas como então explicar a diversidade de significados, essa vacuidade do ser na sua indeterminação. Deixaremos naquilo que E. Levinas chama “o outro que o ser”, o qual não está limitado a um ser diferente, mas buscado na Alteridade, a qual não se identifica na lógica discursiva.
Em outra parte do poema podemos considerar, com diferente abordagem, a intenção de realçar o aspecto imaginativo e construtivo das artes, enquanto dimensão humana específica, da qual procura descrever o poeta: “Poetas e tontos se compõem com palavras”. Essa afirmação pode ser conduzida à reflexão, seguindo os argumentos de ROTTERDAM, E.de., Elogios da loucura, 1ª edição, São Paulo, 1972, p.46-76; em que o autor fala sobre às artes relativamente a loucura, esta última, caracterizada como principal promotora dos grandes feitos e fatos humanos: “Deveis, pois a Loucura todos os bens que já se introduziram no mundo, todos esses bens que estais gozando e que tanto contribuem para a felicidade da vida”; “De tudo quanto dissemos acerca das disciplinas, pode-se concluir que as artes mais vantajosas são as que mais se relacionam com a loucura”. Essa importância que tem a literatura para o homem, não somente como ilustração de algo qualquer, aleatório e confuso, mas como algo que sobrevêm do “ser” e se exemplifica no poema já de início no seu título: “Retrato quase apagado em que se pode ver perfeitamente nada”.
.

Conclusão

A idéia de que não existe a filosofia, mas as filosofias, pode em certo aspecto convencermos, mas sobretudo, devemos considerar alguma unicidade na práxis humana e na própria filosofia enquanto ela mesma, pois do contrário estaríamos por exemplo a falar de etiqueta e não de ética. Em suma, seria trabalhar em sala de aula na busca de elementos essenciais contidos implicitamente em textos ditos não filosóficos e traze-los para discussão dos alunos, a exemplo dos mostrados neste trabalho.
Nesse sentido, podemos buscar algo de novo que diz respeito a filosofia e a própria capacidade de abstração do aluno, a qual não deve ser atribuída a habilidade do entendimento e da imaginação somente, mas que de modo inegável faz-se presente em qualquer ser humano em sua curiosidade por intuir algo diferente do comum.
Esse enfoque, a meu ver, contribui sem choque cultural, religioso ou concepção filosófica de vida, para a reflexão dos alunos, não como simples alunos que estão ali para aprender, mas como um encontro para falar de algo presente em nós e na nossa geração, que despertou preocupação de alguns pensadores cuja dedicação tomou parte ou todas suas vidas e que ainda perduram, mais a título de contato e reconhecimento pelos alunos das questões filosóficas, e não com intuito de equacioná-las.

web site hosting count: