21.10.05

Educação e Sabedoria

Ao ler o texto Os quatro pilares da educação percebe-se que há uma semelhança com a “árvore da sabedoria” proposta por Descartes. O texto que segue é uma tentativa de explicitar essa semelhança e, a partir disso, tentar pensar uma prática letiva capaz de abranger ao máximo os âmbitos apresentados no texto citado e no esquema proposto por Descartes.
O texto Os quatro pilares da educação diz que “a educação ao longo de toda a vida baseia-se em quatro pilares: aprender a conhecer, aprender a fazer, aprender a viver juntos e aprender a ser”. Aprender a conhecer significa adquirir os instrumentos necessários para conhecer. Assim, exercitar a atenção, a memória e o pensamento tornam-se tarefa indispensável, pois estes serão os instrumentos com os quais adquirir-se-á conhecimentos ao longo de toda a vida. Este texto grifa a importância de que tanto quanto ter um conhecimento especializado é necessário uma cultura geral, pois é esta que possibilitará os avanços nas pesquisas, dado que é nos pontos onde as diversas áreas do conhecimento se encontram que podem se dar os maiores saltos científicos.
Aprender a fazer é adquirir além de uma qualificação profissional, competências que tornem a pessoa apta a trabalhar em equipe e saber comportar-se em situações adversas. Aprender a viver juntos é saber compreender o outro e perceber as interdependências para a realização de projetos comuns e para a solução de conflitos. Aprender a ser é tornar-se autônomo e criativo, a partir dos vários aspectos que podem ser desenvolvidos, a saber, sentido estético, sensibilidade, habilidade de comunicação, raciocínio, etc. E a educação, nesse sentido, é algo que se construirá ao longo de toda a vida, visto que o exercício dessas quatro aprendizagens nunca cessa.
Agora, comentarei brevemente a “árvore do conhecimento” proposta por Descartes, para após tentar explicitar os pontos afins entre estas duas concepções. A filosofia para este autor pode ser entendida analogamente a uma árvore que tem raízes, tronco e galhos. A raiz dela seria a Metafísica, o tronco, a Física e os galhos, as diversas ciências que podem reduzir-se a três principais, a Medicina, a Mecânica e a principal e mais perfeita de todas, a Moral.
A Metafísica contém os princípios do conhecimento e para aplicar-se a ela, antes é preciso estudar a lógica, que ensina a conduzir adequadamente a razão, e praticar as regras referentes às questões simples da matemática. Após descobrir os princípios do conhecimento, passa-se ao estudo da Física na qual encontrar-se-á os verdadeiros princípios das coisas materiais. A partir daí pode-se investigar a natureza das plantas, dos animais e, sobretudo, do homem, o que permitirá ir ao encontro das outras ciências úteis à humanidade.
Com isso, têm-se os pontos principais com os quais pode-se traçar uma semelhança entre as duas propostas. Ambas partem de um método para se adquirir conhecimento. E a atenção, assim como no texto citado, é um aspecto importante na filosofia de Descartes, porque é com ela que se pode ter idéias claras e distintas[1] (algo central na sua filosofia). O pensamento e o raciocínio a partir do exercício dos métodos indutivo e dedutivo são os instrumentos necessários para compreender bem qualquer texto.
O estudo das diversas ciências em Descartes para conhecer o mundo e os seres que o habitam assemelha-se à cultura geral necessária capaz de integrar os diversos saberes. E o que mais chama a atenção é que nas duas propostas a moral se encontra num plano diferenciado. Para Descartes a Moral é a mais elevada e mais perfeita ciência que o homem pode conhecer, diz ele em outro momento que o homem que “só possui ainda o conhecimento vulgar e imperfeito [...] deve antes de tudo tratar de formar uma moral que regule as ações da sua vida, porque é nosso dever esforçarmo-nos por viver bem”[2]. No texto Os quatro pilares da educação a moral permeia os dois últimos tipos de aprendizagens e o último no sentido de uma estética de si. Tanto para se relacionar bem com os outros em um trabalho em equipe, como para resolver conflitos e realizar projetos comuns o uso da razão para bem julgar é indispensável. Para Descartes a boa vida seria aquela guiada pela luz do entendimento. Ele constrói em seu livro As Paixões da Alma um conjunto de prescrições práticas para uma boa vida.
Por fim, pensar uma prática letiva que dê conta de integrar todos esses aspectos não é tão difícil quanto parece não aplicável para a carga horária que o ensino no Brasil dispõe. O ensino que se vê nas escolas acaba sempre por priorizar o aprendizado de algumas técnicas para conhecer, tais como a atenção e a memória, e termina no ensino de algumas ciências. Estas últimas trabalhadas de maneira totalmente independentes umas das outras, sem que o aluno possa perceber o que uma influenciou na outra ao longo da história. E o aspecto moral então, nem se fala. Atualmente percebe-se um algo índice de violência tanto na escola, na sociedade e na família e um descuido com o lado afetivo na educação.
No entanto, idealizando uma atividade em sala de aula que levasse em consideração todos estes aspectos, poderia se pensar as seguintes atividades: exercitar o método adequado conforme o exercício ou trabalho proposto; trabalhar de maneira interdisciplinar; procurar tornar os assuntos estudados algo significativo para o cotidiano dos alunos, ou seja, fazer com eles percebam a importância de cada disciplina para a sua vida; realizar trabalhos em grupo, pesquisas, debates, etc; avaliar os alunos não só em seu progresso individual, mas nos trabalhos com o grupo; avaliar a capacidade que o aluno teve de incorporar os conhecimentos em sua maneira de ser, isto é, se ele leva em conta os conhecimentos adquiridos para argumentar melhor, se ele relaciona as diversas disciplinas ao pensar sobre algum tema, etc.
E, além disso, exercitar em cada aula o bom convívio, compreendendo as necessidades dos alunos, dar a oportunidade para todos exporem seus pensamentos e opiniões, procurar soluções em conjunto e não impor o que pensa ser o melhor. Esta última atividade pode ser realizada para o trabalho filosófico com os diversos textos, apresentar um tema com a posição de dois ou mais autores que se oponham, de maneira que o aluno tenha que tomar uma postura em relação ao tema, e não pareça que exista apenas uma solução e tenha que aceitá-la.
A partir de atividades como essas, e não tenho a pretensão de que tenha citado todas as que podem ser praticadas, pode-se, em trabalhando de maneira adequada, avançar um pouco mais em relação ao ensino que se tem em geral nas escolas. Essas atividades podem fazer com que os alunos realmente desenvolvam-se no todo, tanto como futuros profissionais, como membros de uma sociedade pacífica e que está sempre em busca de saber.

[1] Ao pensar atentamente em algo pode-se ter idéias claras e distintas a respeito da coisa pensada e estas são as idéias que persuadem o sujeito a tomá-las como certas.
[2] DESCARTES, René. Princípios da Filosofia. Tradução: João Gama; revisão da tradução: Joaquim Alberto Ferreira Gomes e José Manuel de Magalhães Teixeira. - Lisboa: Edições 70, 1997, p. 21.

Texto para ensaio:
Os Quatro Pilares da Educação, em: DELORS, J. et al. Educação um tesouro a descobrir : relatório para a UNESCO da Comissão Internacional sobre Educação para o século XXI, 5ª ed., São Paulo, Cortez, Brasília, DF: MEC/UNESCO, 2001.

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