29.10.05

Inclusão da Filosofia no Ensino Médio: Um "Pepino".

Muitas são as expectativas acerca da inclusão do ensino de Filosofia no Ensino Médio. Várias são as especulações sobre o que poderá ser alcançado com isso. Em geral, quando se pergunta para alguém, leigo ou não, qual o objetivo da reflexão Filosófica e se será importante, ou pelo menos válida sua inclusão no ensino de jovens (ou qualquer outra faixa etária; visto que alienação não tem idade), ouve-se quase sempre a mesma resposta: Possivelmente! Já que a Filosofia faz pensar. Com base nesta afirmação, tentarei explanar um ponto que aterroriza qualquer graduando: a especificidade da didática da filosofia. Através do comentário sobre o que é a filosofia (a concepção em que somos formados), seus objetivos, sua importância para a atual sociedade brasileira (e o que a mesma espera da inclusão); e alguns dos problemas que enfrentaremos pelo fato de ser uma disciplina "especial" nas escolas. Como base, utilizarei o texto do professor Alejandro Cerletti, A Filosofia no Ensino Médio.

A Filosofia não é uma “entidade” ou uma coisa que faça alguém pensar de uma hora para outra. Pode-se entendê-la como uma atividade que nos auxilia, na nossa cotidiana e “simples” vida, a apropriarmo-nos da pergunta “por quê?”. Ou seja, como disse Cerletti (2004), a termos uma atitude questionadora e problematizadora. Quando se fala em postura problematizadora (crítica), não se trata de sermos implicantes e intrometidos; apenas de termos consciência da nossa posição frente ao mundo. Como dizem alguns professores meus: aprender a “usar o cérebro”. Interessante neste sentido o pensamento de Horn (2000), quando afirma que não se trata de entender que cabe somente à filosofia suscitar no aluno uma mudança de atitude perante o mundo, mas é intrínseco à sua natureza e especificidade quando se trata de ensino.


Ao nível das relações sociais, essa postura consciente significa não se conformar e acatar qualquer informação sem antes analisá-la, através de uma constante crítica à cultura e às informações recebidas. Tal análise em geral é complicada e “dolorida”, visto que mexemos constantemente com os alicerces em que estão embasadas nossas ações; nosso status quo. A postura crítica descrita a ser desenvolvida pelo exercício do pensamento não é implicância, é apenas uma precaução consigo mesmo na relação com os outros indivíduos (atitude nada nociva nos dias de hoje, diga-se de passagem).
Seguindo esse pensamento, alguém poderia perguntar-se: “certo, mas é esse o objetivo do ensino de filosofia? Despertar em cada um o desejo de pensar?”. Cerletti (2004) afirma que isso dependerá da postura filosófica do professor em relação ao que é filosofia e para que serve. Disso inclusive decorrerá toda sua metodologia e atividades didáticas. O que não quer dizer que o professor não deve ter um planejamento prévio de suas aulas. De qualquer forma, defende a idéia de que ensinar filosofia é, antes de tudo, convidar a pensar. Não é exatamente ensinar a pensar, como dito pelo senso comum; é tentar despertar o desejo do aluno a procurar desenvolver, por si só, sua capacidade intelectual.


Contudo, apesar de nós, futuros professores de filosofia, estarmos cientes de qual papel desempenhar na relação com os alunos, vários problemas pairam sobre o ensino de filosofia. Pois, para um programa que visa oferecer ao aluno a possibilidade de desenvolver sua estrutura intelectual para o exercício crítico e consciente da vida cidadã, será muito difícil realizar esta façanha, visto a maneira como a disciplina será ofertada nas escolas. Vários são os problemas, dentre eles: pela Lei não é uma disciplina obrigatória; papel profético atribuído pela sociedade através da mídia; e o principal, não existe uma metodologia nem uma didática específica, como nas outras disciplinas do ensino médio, devido às peculiaridades próprias da atividade filosófica. Nesta perspectiva, é interessante a sugestão de Cerletti (2004), quando afirma que a primeira questão que um professor de filosofia deve responder – ou ao menos colocar com rigor – é o que significa ensinar filosofia. A partir daí desenvolver, de maneira coerente com a resposta, esquemas didáticos, seqüências de ensino ou estratégias pedagógicas.


Quanto ao parecer da lei, Horn (2000) diz que a Filosofia “sofre ainda hoje para ser efetivada enquanto disciplina. A lei[1]
não caracteriza objetivamente sua obrigatoriedade no currículo, ficando novamente na condição de disciplina complementar, podendo ser ofertada ou não pela direção da escola dentro do quadro de preenchimento de 25% com disciplinas optativas”. Disso tudo decorre que: a sociedade acredita que a disciplina de filosofia fará com que os jovens que freqüentam a escola “aprendam a pensar”. Achará que uma disciplina complementar que terá, possivelmente, um ano apenas para desenvolver suas atividades e problemas em relação à carga horária e metodologia, conseguirá aperfeiçoar (por um toque de mágica talvez) a atividade reflexiva nos jovens. Coisa que deveriam ter aprendido durante toda sua formação, e não apenas em um ano em uma disciplina com carga horária reduzida.

Poucos provavelmente serão os professores que conseguirão desenvolver um bom trabalho nestas condições. O julgamento da sociedade quando perceber que os jovens que passaram por uma disciplina de filosofia “não aprenderam a pensar” será hostil. A culpa será de quem? Não importa. O caso é que o ideal filosófico de auto-suficiência será denegrido antes de conseguir se estabelecer. E a disciplina de filosofia continuará a ser vista apenas como mais uma disciplina, que não acrescenta nada à formação dos jovens. Será apenas mais uma que despejará conteúdos em cima dos alunos.

Em suma, para edificarmos uma didática em filosofia, precisamos estar cientes das peculiaridades que o Ensino de Filosofia possui. Estarmos cientes que precisamos adotar uma postura sobre o que ela é antes de desenvolver qualquer planejamento. Isso é importante para que a aula de filosofia não se reduza a uma mera exposição de conteúdos. A respeito de "ensinar a pensar", talvez seja quase impossível executar essa tarefa em um contexto onde todos estão acomodados seguindo princípios e acatando informações ditadas por outros; em que é perniciosa uma massa consciente de suas ações. Como diz um conhecido: "Um baita pepino!". Na prática, pelas dificuldades já expostas, alguém poderia afirmar: esse anseio é apenas um ideal! Se for, que sirva de base para nossas ações, pois seremos professores de filosofia e teremos que nos portar como tais; apesar de todas as dificuldades.



[1] LDB, lei n. 9.394/96, de 20 de dezembro de 1996.


Referência Bibliográfica:

HORN, G. B. A presença da filosofia no currículo do ensino médio brasileiro: uma perspectiva histórica. in: KOHAN, W. Omar. et allii. Filosofia no ensino médio. Petrópolis: Ed. Vozes, 2001.

CERLETTI, Alejandro A. Ensinar filosofia: da pergunta filosófica à proposta metodológica. in: KOHAN, W. Omar. Er alli. Filosofia: caminhos para seu ensino. Rio de Janeiro: Ed. DP&A, 2004.

2 Comments:

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