1.10.05

Mafalda e a Filosofia

O Verdadeiro alcance filosófico das tiras de Quino, parece não ter tido o seu merecido valor. Além da riquíssima forma que podem ser trabalhadas pelas diversas áreas do currículo escolar, fornecem um aparato interdisciplinar muito diverso. Como posso ter a propriedade de falar tudo isso? Falo porque li quase 2000 tiras e delas selecionei umas 120 de um bom alcance filosófico, após, dei uma última garimpada e consegui enxutar ainda mais para 49 tiras que tem muita coisa para se falar e se perguntar. Meu projeto é comentar as 49 e tentar postar aqui todas, de início tenho 6 comentários que já estão disponíveis aqui. Demonstro em meus comentários vários assuntos que nós da Filosofia trabalhamos, mas nunca conseguimos exaurir por completo. Forneço a vocês um material que pode ajudar muito a dar novos esclarecimentos para questões que nos fazemos todo dia e não conseguimos nos dar por conta. Se gostarem por favor comentem e se não, escrevam mesmo assim. Admito que não respondo questões, mas tento deixar claro como elas me tocam. - Clique no link para ver a tira -

1° tira (320B) – Após fechar a porta para uma reunião de assuntos infantis, chega o pai da Mafalda e fica estarrecido por as crianças chavearem a porta. Logo que a porta é aberta por Mafalda, ele pergunta o porque desse fato e ela com sua sapiência responde que agora por uma questão de ética os pais podem entrar para verificar a reunião. Claro que a intenção da Mafalda era de separar os assuntos infantis dos assuntos de adultos, afinal quando os pais se reúnem, segundo a visão dela e pelo que eu notei, são para falarem dos filhos e de suas má condutas perante a realidade dos pais. É uma questão de direito, pois as crianças também devem poder falar dos pais julgando a realidade deles do mesmo modo como eles julgam as das crianças. O mais interessante é que os adultos quando se agrupam para falar das crianças, eles acabam se reunindo em um determinado local ou fora do alcance dos ouvidos das crianças. Mafalda quis mostrar que as crianças têm ética em não falar mal dos pais na frente dos próprios pais. Podemos também entender como uma relação organizada de patrão com o empregado, nenhum empregado fala mal do patrão na frente do próprio patrão, com o risco de ser demitido. O que deveria ser o contrário, o empregado deveria não falar mal na frente do patrão não por medo de ser demitido, mas por respeito. As reclamações em comum não comprometeriam apenas um empregado ou filho, mas se saberia os erros dos pais e vice-versa por algum mal em comum, assim poderiam resolver os problemas de relações de uma forma mais amistosa, levando para um estado de paz entre as categorias sejam ela quais forem. Nossa visão poderia ir ainda um pouco além, pois podemos notar que os filhos representam os empregados de várias empresas e os pais, os patrões das empresas. A reunião das crianças representaria a reunião do sindicato dos empregados que se reúnem para reivindicar alguns direitos que eles tem frente aos patrões na representação de pais. Uma questão para ser trabalhada em sala de aula é a pergunta do que é ético.
http://filosofiaufsm.vipflog.com.br/?369288

2° tira (322D) – Sobre o partido dos desentendidos. Enquanto o pai da Liberdade é do partido socialista o pai da Mafalda é do partido dos desentendidos. Aqui fica maquiado na fala do pai da Mafalda o pouco interesse pela política, no sentido de enganjamento político-partidário, não que o pai da Mafalda não se interesse por política, mas não se compromete com uma bandeira partidária. O que fazer quando nossas idéias políticas são diferentes das ideologias dos partidos existentes? O que é esquerda e o que é direita? Será que eu preciso fazer parte de um partido político para poder fazer política? O fundo socialista de Quino, o criador da Mafalda é latente, pois não é à toa que o nome da filha de um socialista é Liberdade.
http://filosofiaufsm.vipflog.com.br/?369295

3° tira (323B) – A crítica a democracia é o alvo da tira aonde Mafalda vai ao dicionário ver o que significa Democracia. A significação do dicionário vem a retratar como pano de fundo o uso da significação de Democracia pelo governo argentino no início da década de setenta. Esse é um ponto crucial para o debate filosófico-político no que diz respeito aos conceitos de Democracia e Soberania. É imprescindível nos questionarmos quanto à significação de Democracia no contexto atual e essa tira é um prato feito para uma discussão em sala de aula quanto ao significado da política contemporânea. Podemos nos remeter também em entender o que é a Soberania, uma boa dose de Hobbes acrescentaria um debate interessante, afinal de contas, o que é um povo soberano? A boa risada de Mafalda soa como uma piada sobre os conceitos políticos quanto ao seu ideal e o que realmente ele significa na prática daqueles que governam.
http://filosofiaufsm.vipflog.com.br/?369300

4° tira (323D) – Normalmente as tiras de Quino se refere ao contexto político, mas em casos escassos, ele, trata de questões de alto valor filosófico. Um bom exemplo é essa tira sobre a mudança. Vale umas lições sobre a filosofia heraclitiana sobre a mudança. Tudo muda ou tudo permanece? A visão de Susanita pode ser confundida com a de Parmênides quando ele fala que aquele que é não muda, pois se mudasse não seria. E a visão de Miguelito estaria amparada por Heráclito onde a mudança é contínua e nunca para, agora somos nós mesmos e depois poderemos não ser nós mesmos, pois já mudamos um bocado nesse espaço de tempo. Heráclito se pergunta se é possível pular duas vezes no mesmo rio, dependendo da visão estabelecida por aquele que faz uma leitura da tira, pode defender alguma das duas posturas, assim poderemos responder a pergunta de Heráclito.
http://filosofiaufsm.vipflog.com.br/?369303

5° tira (324E) – Por tudo que li da Mafalda, posso afirmar que essa tira é a mais pós-moderna de todas. Esbarrando em uma onda concretista, Quino faz pensar sobre uma idéia pessimista de ‘crise’ nas pessoas, onde as instituições se confundem com a própria idéia de crise. Muitas idéias e ideais vivendo lado a lado sem um peso excessivo que caia por qualquer uma delas. Notando-se bem de perto, Mafalda não é pessimista, mas acredita que as pessoas são. Não dá para entender bem o quanto Filipe é convencido disso, se é que ele já sabe disso ou não se dá por conta dessa situação que Mafalda expôs. Parece que Filipe sabe que isso existe, mas ele se dá por conta que a crise é bem maior do ele acreditava ser. Quino escreveu essa tira há pelo menos 40 anos e ainda hoje é atual, afinal de conta, as instituições, a moral, a política, a educação, ainda estão em crise e a Mafalda ainda continua otimista. E hoje em dia é melhor ser otimista ou pessimista? As coisas tendem a piorar ou melhorar? Que tipo de coisas melhora e que tipo de coisas nunca melhoram?
http://filosofiaufsm.vipflog.com.br/?369304

6° tira (329B) – O que tem em comum um muro de tijolos com um calçamento de paralelepípedos de uma rua? Segundo a o Pai da Liberdade tem uma explicação da sociedade por detrás disso tudo. O muro de tijolos representa a sociedade atual, todos nós somos tijolos e formamos a sociedade (muro). Tem uma coisa errada nessa situação, uns ficam por baixo e agüentam mais peso do que outros. Os tijolos que estão na parte de cima são privilegiados, pois eles têm muito menos peso para sustentar, além de ter a melhor visão da paisagem. Segundo o pai da Liberdade isso é um erro, sendo que todos têm o mesmo formato, porque uns tem que estar em cima com o bom e outros têm que estar por baixo dando sustento às mordomias dos tijolos de cima? Deveria ter uma disposição igual ao calçamento de paralelepípedos das ruas, todos ajustados na mesma altura, sustentando todos o mesmo peso e tendo a mesma visão da paisagem como todos, isso seria uma forma igualitária de sociedade. Após Liberdade expor a idéia de sociedade justa segundo a visão de seu pai a Mafalda, passa um carro grande e bonito por cima do calçamento dando a impressão de que a visão de sociedade justa do pai da Liberdade é um ledo engano. O que seria uma sociedade justa? Será que poderá existir uma sociedade justa?
http://filosofiaufsm.vipflog.com.br/?369307

2 Comments:

Blogger Ana Carla said...

Muito interessante você expor uma perspectiva teórica das histórias de Quino. Entretanto, não consegui viusualizar nenhum dos quadrinhos.

domingo, julho 12, 2009 9:56:00 AM  
Blogger Prof Ju said...

Eu também achei muito interssante mas quero poder visualizar os quadrinhos

segunda-feira, março 14, 2011 3:03:00 PM  

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