1.10.05

Pr�tica em Filosofia

“NAVEGAR É PRECISO; VIVER, NÃO”


“Viver é preciso; navegar, não”. Faço esse trocadilho com uma frase de Fernando Pessoa tão conhecida de todos nós um pouco para mostrar que não precisamos ver as coisas sempre da mesma forma. Podemos utilizá-las também para uma discussão filosófica. Porém o que quero abordar neste ensaio é que nada é tão preciso assim como parece ser. Na verdade a minha interpretação sobre tal frase é um pouco diferente do que na época foi feita. Quero primeiramente esboçar um pouco sobre os significados das palavras presentes na frase, pois acho necessário para o caso de não criar confusão, sendo que as palavras “navegar” e “preciso” podem ter mais de um significado, tanto denotativo quanto conotativo. Mas, de modo geral, o que vou falar no presente texto, é sobre uma questão prática, que é a seguinte: os seres humanos se diferenciam dos outros animais pelo fato de serem racionais, mas isso, como todos sabemos, não quer dizer muita coisa pelas próprias ações do homem.
O verbo “precisar” tem dois significados denotativos e o que eu utilizarei aqui é no sentido de “certo, correto...”. Já o verbo “navegar” tem sentido conotativo e denotativo, o que utilizarei no presente ensaio é o denotativo que significa a arte de navegar. A navegação tem por objetivo ser precisa, pois utiliza-se de métodos e instrumentos que têm por princípio a precisão. Mas todos esses métodos e instrumentos são construídos pelo próprio homem, pelo intelecto humano, então isso não quer dizer que a arte de navegar não está passível de erro. E além disso tem as forças da natureza que nós nunca podemos prever com certeza. Nós vemos tudo o que está ao nosso redor, podemos ter uma boa máquina como instrumento para fazermos previsões das mais variadas possíveis e, também as mais corretas, mas estaremos sempre correndo o risco de falharmos. Isso ocorre porque somos nós que construímos essas máquinas e os instrumentos para fazermos previsões do que ocorrerá, mas nós cometemos muitos erros, inclusive ao construirmos máquinas.
Apesar de sermos racionais, termos um intelecto, nós somos também capazes de errar. Mesmo que tentemos cultivar ações racionais, de estarmos sempre nos aperfeiçoando no que gostamos de fazer, somos seres humanos e não “Deuses”. Isso ocorre porque o ser humano é regulado pelo princípio de liberdade ou livre arbítrio. Sendo assim não é preciso viver nem navegar. Tanto a vida quanto a arte da navegação são um mistério. A única precisão que temos é no que já foi acabado. Mas isso não vale pra nada do que vai vir. Quando tomamos uma decisão e a sistematizamos não calculamos o nosso ânimo e os infortúnios da vida. E é por isso que nem sempre as coisas saem como nós queríamos.
Isso tudo é muito bom, errar, acertar, não saber o que virá na próxima onda. São essas coisas que nos incentivam a viver, pois se fossemos “Deuses” já saberíamos o fim da história e não teria a “menor graça”. Os infortúnios da vida é que fazem a ponte para o acerto. Bom! Se eu desse o sentido conotativo na palavra navegar, comparando-a com a expressão “viver a vida nos seus altos e baixos sem saber o que será de mim no amanhã...”; aí sim daria para se dizer que navegar é preciso (necessário), viver (com toda a precisão da racionalidade, do cálculo e da certeza) não é preciso.

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