24.11.05

Problemas iniciais da pratica em filosofia

Problemas inicias da prática em filosofia

Se me disponho a filosofar, é porque busco compreender as coisas e os fatos que me envolvem, a Realidade em que estou imerso. E porque quero saber o que posso saber e como devo ordenar minha visão do Mundo, como situar-me diante do Mundo físico e do Mundo humano e de tudo quanto se oferece à minha experiência. Como entender os discursos dos homens e meu próprio discurso. Como julgar os produtos das artes, das religiões e das ciências.
Oswaldo Porchat Pereira, A Filosofia e a Visão Comum do Mundo



A filosofia nasce de uma sedução. Aquilo que aparentemente não tem uma explicação ou é algo confuso, nos seduz. O prazer da descoberta que é gerado pela sedução, torna-se um passo para o filosofar. A filosofia tem a missão de seduzir os jovens para que não caiam em alguns enganos. A argumentação falaciosa é um exemplo. O principal da filosofia é lembrar que filosofia é ensino de filosofia, que sua luta é contra aquilo que é banal. A tarefa da filosofia é pensar sobre o pensamento, ou também, explicar palavras com o auxílio de outras palavras que vão dar um passo para outras palavras e outras, e outras. Trata-se de um não aceitar primeiras respostas, ou seja, nenhuma resposta pode ser pronta. A dúvida, o rigor e a insatisfação movem a filosofia. Em suma, filosofia é o julgamento de tudo aquilo que o homem produz enquanto cultura.
Agora, como fazer dessas inquietações aparentemente fáceis de serem entendidas, respostas para problemas dos quais sempre são dúvidas. O que podemos destacar na filosofia que faça uma diferença para o sistema básico de ensino? Aqui não tocaremos na questão da filosofia no ensino fundamental, a discussão gira em torno da receptividade da filosofia no ensino médio.
Será que a filosofia salvará os nossos alunos dessa estrutura maquinária do ensino médio? Bom, se aqueles que acham que isso é possível, é melhor ficarem no plano onírico. A filosofia não salvará o ensino médio, bem como qualquer outra estrutura da educação. A filosofia é apenas mais um saber que tem o mesmo caráter de qualquer outra disciplina obrigatória do currículo. A sua tarefa não pode ser a de fornecer respostas para a educação, mas sim e um refletir melhor sobre a educação. Levando em conta principalmente àqueles que dedicaram a vida para tentar entender o funcionamento da educação e da razão humana. A salvação não está na filosofia. A contribuição da filosofia é tão igual quanto qualquer outra disciplina. Sabemos claramente a importância de cada disciplina para a formação do estudante de ensino médio.
Os problemas que a filosofia enfrenta no ensino médio são muitos. O primeiro dos problemas é como fazer o aluno ter interesse na filosofia. Sabemos que existe nos órgãos de ensino uma pouca valorização da filosofia. A desvalorização por meio desses órgãos faz com que os alunos também tenham um sentimento de que a filosofia pouco irá acrescentar na sua formação, gerando um preconceito deles em relação à filosofia que ainda tem a imagem do filósofo, como aquele que está no mundo das nuvens. As poucas referências que tive notícia no ensino médio sobre a filosofia ficam em tom de brincadeira, - Ei fulano, olha para mim, presta atenção, pare de filosofar e volte para a aula-, menções como essa eram comuns quando eu estava no ensino médio. A luta contra o preconceito da filosofia ainda é necessária, o filósofo, para muitos ainda vive no mundo da lua. Embora muitos falem que a filosofia não tem mais a necessidade de ser justificada, acho que ela deve sempre ser justificada, por seu caráter auto-justificativo. Não que a filosofia deva sempre se deter em explicar porque está no ensino médio para tirar o lugar da matemática ou da física, mas de que seu conteúdo é a base justificativa dessas ciências.
Outro problema sério do porque a filosofia é pouco valorizada, se encontra na formação dos professores que ministram a disciplina de filosofia no ensino médio. Outro dia, fui até minha cidade, Cachoeira do Sul, pedir informações em algumas escolas sobre a filosofia no ensino médio. Das cinco escolas que visitei, nenhuma tinha professor com formação em filosofia. Constatei também que em duas delas, os professores norteavam as discussões em sala de aula para lições de moral, que em geral se baseavam no comportamento que os alunos deveriam ter frente à sociedade. A falta de um conteúdo determinado foi geral em todas as escolas, cada professor seguia uma estrutura de conteúdo diferente. Além disso, a bibliografia de filosofia nos estabelecimentos era mínima e os professores conheciam muito pouco das obras filosóficas básicas. Esses problemas são enfrentados pelas disciplinas de sociologia e psicologia, que também são dadas em algumas dessas instituições.
As soluções para esses problemas básicos começam com a entrada na filosofia no vestibular. Com uma certa pressão da universidade, as escolas terão que se adequar a um currículo, uma certa carga de horas-aula, instrumentalização do professor de filosofia e a preocupação da formação com aquele que ministra a disciplina de filosofia. Um problema que surge com as outras disciplinas do currículo é: quem vai ceder lugar no horário para a filosofia? Essa discussão é oportuna, mas não aqui. A prioridade dada para a filosofia faz com ela tenha um conteúdo mínimo, o que não existia antes. O problema é verificar qual conteúdo e que tipo de abordagem dar para ele.
A abordagem do conteúdo sugere um problema que não está inserido somente na filosofia, mas em todas as outras disciplinas. Surge então um problema didático que não é unicamente problema da filosofia. O professor de filosofia não deve se preocupar com o conteúdo, pois neste momento existe um conteúdo mínimo. Deve se preocupar em como o aluno deverá se interessar por ele e ter uma noção de que nem todos gostarão de ter aulas sobre filosofia. É claro que uma boa formação se torna uma característica essencial para que haja um envolvimento do professor com o conteúdo. Sendo que o objetivo maior se situe no aluno, é nele que devemos nos ater quando preparamos a aula. Para isso deve ser claro os nossos objetivos como professores de filosofia frente aos alunos.
Um dos problemas fundamentais que todo o professor de filosofia enfrenta é o da falta de motivação e preguiça dos alunos. Como o professor deve fazer para que suas aulas de filosofia se tornem interessantes sem sair fora do conteúdo estipulado? Como lidar com o pessoal que não lê e não se interessa com o conteúdo? Problemas como esse afetam todas as áreas do saber. No entanto, a filosofia tem uma peculiaridade, que é sobre a possibilidade do aluno filosofar. Normalmente entendemos que os alunos não filosofam e não entendem bem o argumento do autor. Como pescar esse aluno que conseguiu argumentar de uma forma que nem mesmo nós não nos damos por conta? Isso não que dizer que ele seja um filósofo, pois um aluno que tem bons argumentos e tem uma atitude crítica está filosofando, não que isso implique que ele seja um filósofo e também que ele possa se tornar um. Da mesma forma um aluno que resolve um problema matemático difícil para o padrão de sua turma e isso surpreende a todos o que não o torna um matemático, mas que ele obteve um raciocínio matemático elevado.
Temos muitos problemas básicos a serem superados antes de notar um possível filosofar do aluno. A filosofia carrega uma não obrigatoriedade em sua história, sendo ainda muito difícil sua obrigatoriedade por vias da lei. Essa obrigatoriedade conseguiria movimentar as escolas no sentido de fazer com que exista uma regulamentação do professor de filosofia, ainda pouco valorizado, isso daria uma carga de força para o profissional, fazendo com que ele próprio tenha uma motivação a mais no processo ensino-aprendizagem. A necessidade da filosofia como obrigatória eliminaria uma gama de problemas. Sem a resolução desses problemas, a viabilidade da filosofia e a possibilidade dos alunos virem a filosofar fica comprometida, sendo tarefa de muito poucos o que poderia ser de muitos. Com a incursão da filosofia no vestibular, podemos começar a ter um certo deslumbre quanto ao futuro da filosofia. Tanta importância tem isso, que somente agora a universidade está dando um espaço maior para a preocupação dos alunos do curso de filosofia, quanto ao ensino de filosofia.


Andrei Vieira Cerentine

2 Comments:

Blogger géssica said...

Adoreii o Texto, PArabéns :)

'A pratica de Filosofia é necessária..' ;)

Abraços..

'Só seii que nada sei!. Géssica Figuerêdo.

quarta-feira, abril 01, 2009 6:59:00 PM  
Blogger Daniela said...

Olá!
Acabei de descobrir o blog de vocês e adorei o texto! Sou estudante de Física e me interesso por filosofia. Vou colocar um link de vocês no meu blog, pra não perdê-lo de vista, ok?
Abraço!

segunda-feira, agosto 09, 2010 8:15:00 PM  

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