23.11.05

SAD NEWS FROM KOREA, UMA ANÁLISE FILOSÓFICA SOBRE A CANÇÃO DE LIGHTNIN’ HOPKINS

You know the world is in a tangle, baby yeah, I feel they’re gonna start war again.
Yes there’s gonna be many mothers an fathers worryin’, yes there´s gonna be many girls that lose a frien’.
I got the news this morning, right now they need a million men
You know I been overseas, woman, po’ Lightnin’ don´t want to go there again.
(“Você sabe que este mundo está uma confusão, mulher, sim eu acho que vão começar a guerra de novo. / Sim, vai haver muitas mães e pais preocupados, sim vai haver muitas garotas perdendo um amigo. / Ouvi a noticia esta manha, estão precisando de um milhão de homens/ Sabe, estive do outro lado do mar, mulher, coitado do Lightnin´, não quer mais ir para lá”.) Sad News from Korea, Lightnin’ Hopkins.

Em uma canção engajada sobre a Guerra Fria, Sam Lightnin´ Hopkins um dos últimos lendários bluesman do Texas, constata a crise de valores morais e éticos que permeiam a antecedência e o desenrolar das guerras de nosso tempo. A confusão da qual Hopkins nos fala em seu primeiro verso, é a prova da ineficácia dos princípios éticos que norteavam as sociedades, onde os conflitos traem o princípio universal de manutenção da vida, vitimando milhões de inocentes pelo uso racional da violência. Sob o jugo da guerra, o homem é arrancado de sua individualidade sendo reduzido à uma mera parte de uma coleção de objetos desprovidos de significado autêntico. Assim, transformado em objeto, acaba por perder o seu sentido próprio de ser um sujeito que transforma e conhece a realidade em prol de sua vida com os outros, de modo que se proporcione o bem comum. Cabe então ao homem, enquanto sujeito ético-moral que é, reafirmar os fundamentos que validam a sua realização de ser homem e de ir de encontro ao outro.Pois a ética somente se realiza, se for ela baseada em uma relação inter-humana.
Quando a humanidade encontra-se em conflito, o parâmetro que define o homem passa a ser o de simples objeto. Nesta acepção, o homem perde sua dignidade de ser uma vontade livre, de expressar sua capacidade para comunicar-se com seus semelhantes, bem como a sua valoração enquanto agente moral que é. No verso em Hopkins diz, “estão precisando de um milhão de homens”, é possível de se visar o modo como o sujeito é transformado em uma quantia numérica manipulável, pronta para ser usada pela maquina de guerra, mesmo que seja contra a sua vontade, interesse e desejos próprios. Pois na guerra, o encontro humano se dá pela via da violência, onde o objetivo deste embate é a simples aniquilação de um objeto visado que ocupa um certo espaço, este objeto, é o outro homem. O que fazer então quando Hopkins afirma, “Sim, vai haver muitas mães e pis preocupados, sim vai haver muitas garotas perdendo um amigo”. O que nos resta como solução, é revisitar os elementos constitutivos do campo ético, papel este que deverá ser desempenhado pela via da investigação filosófica, um pouco esquecida.
Em certa medida, as ciências ditas positivas reduzindo seu campo de investigação do puro conhecimento dos fatos, reduziu por conseguinte o saber e o homem a meras coisas. A superação deste paradigma somente irá se dar pela regência da investigação racional acerca do próprio homem, ou seja, quando houver nos diversos campos do saber um interesse renovado de um resgate pelo homem, pela cultura, pela sociedade e seus sistemas de valores éticos. Visto que, uma vez instaurada a guerra, o homem enquanto sujeito moral, deve pela investigação filosófica revisitar as condições de seu existir ético, ou seja, ser consciente de si e dos outros como sujeitos éticos iguais a ele e não como simples objetos dados no mundo.
Sendo assim, é necessário que se eleve o homem à condição de responsável, pois é ele quem age sobre o mundo e sobre os outros. Uma vez guiado pela racionalidade, será capaz de avaliar as conseqüências de suas ações sobre si e sobre os outros, podendo responder fundamentalmente sobre elas. Somente sob esta forma poderá ser livre, no sentido de ser autodeterminado, dando a si mesmo as regras que regula sua ação no mundo. Uma vez supridas estas características básicas da constituição de ser sujeito moral, o homem poderá restabelecer o estado de pacificidade no encontro ético inter-humano.
Por fim, ficamos com o ensinamento de Marilena Chauí, que nos diz que: “Os valores éticos se oferecem, portanto, como expressão e garantia de nossa condição de sujeitos, proibindo moralmente que nos transformem em coisa usada e manipulada por outros”.1 Uma vez instaurada a ética, a possibilidade da convivência pacífica fica de certa maneira assegurada, assim de Lightnin´ Hopkins poderemos finalmente ouvir a canção The War Is Over, mas este já é um outro blues.

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