1.12.05

Escola, meio para a desalienação

UNIVERSIDADE FEDERAL DE SANTA MARIA

CURSO DE GRADUAÇÃO EM FILOSOFIA

Disciplina Prática em Filosofia – 2º semestre/2005

Relido

Acadêmico Newton Palut Silveira Roballo

Escola, meio para a desalienação

SARTRE, Jean-Paul (1973), ao dizer que o homem, ou como diz Heidegger, a realidade humana, antes de poder ser definido por qualquer conceito “o homem primeiramente existe, se descobre, surge no mundo; e que só depois se define”, ou, “a existência precede a essência”, admite em tese, que o homem é responsável por aquilo que ele é em sentido genérico (todos os homens) e que tal domínio pertence ao futuro, ratificando assim a abordagem sócio-político-culturais no processo de educação e ensino disposto nas LDB e seus adendos, especificamente no seu artigo 35 (Lei 9.394, de 1996). Devemos reconhecer que tal proposta tem a ver diretamente com a disciplina de Filosofia e sua prática de ensino, apesar de apresentar-se de maneira não muito simples e clara.

Tomaremos como limiar, o mais básico dos entendimentos circulantes de filosofia como sendo o “amor à sabedoria”. Destacamos como núcleo o termo “sabedoria”, dando-lhe um nítido limite adaptado de E.Tugendhat, 1982, como sendo a “aspiração a um determinado saber” sob três focos determinantes: 1) que o saber se refira de algum modo ao todo ou que seja especialmente geral, universal (conteúdo); 2) que passe pela dúvida e obtenha rigor na fundamentação/legitimação, por nós (homens) mesmos (método) e, 3) ter referência ao bem e ao mal como orientação no mundo, direcionado para o todo de nossas vidas (objeto).

Os pressupostos acima, apesar de vagos e requerem explicações, são suficientes para apresentar alguns aspectos relativos ao ensino de filosofia e sua prática, pois abarcam relações pertinentes em uma abordagem sócio-político-culturais, como motivação para objetivos da disciplina de filosofia nas escolas, emergente da abordagem feita por Paulo Freire “a partir do homem como sujeito elaborador e criador do conhecimento”.

A totalidade das interações homem-mundo, sujeito-objeto, decorrente do conjunto das vivências do homem em seu contexto cultural, contrasta um processo imprescindível para que o homem se desenvolva e se torne sujeito de sua práxis.

Nesse sentido, podemos dizer que o enunciado de Paulo Freire atende em parte as determinações relativas ao saber. O saber remetido à ação educativa, com fins de promover o próprio indivíduo a uma condição de reflexão crítica sobre o mundo em que vive, desperta nesse indivíduo a intenção de transformar o mundo que foi-lhe apresentado e, não obstante, deixa de ser esse indivíduo um instrumento passivo de ajuste à sociedade (mundo) em que vive, mas um possível inventor ativo de uma nova.

A cultura entendida aqui como “... todo o resultado da atividade humana, do esforço criador e recriador do homem, de seu trabalho por transformar e estabelecer relações dialogais com outros homens” (Mizukami, M. da G. N., Ensino: as abordagens do processo, 1986 apud Freire, 1974a, p 41), figura as experiências humanas promovendo uma atividade crítica e criadora no próprio individuo em almejar a tarefa, de cada vez mais, tornar-se sujeito de sua práxis.

Em tese, cada pessoa, ao estabelecer relações e responder aos desafios apresentados pelo mundo durante o vivenciar de sua época, agrega por si, valores, aspirações, necessidades, motivos, que são traduzidos na sua maneira de ser e de conceber o mundo.

O ponto crucial nessa discussão e talvez o papel da filosofia no currículo do ensino médio, seria de alavancar o jovem a tornar-se um sujeito capacitado à participação ativa na sociedade, na cultura e até na história, mediante conscientização de implicações desmitificadora desinibida de fatores externos, libertando-o daquilo que capta para si como pretensão de verdade ou saber, de maneira mítica e não crítica, exemplificada em deliberações e ações espontâneas.

A mediação pressuposta no âmbito das escolas, em especial, a disciplina de Filosofia, justifica-se na peculiaridade desta disciplina no predomínio da visão holística e, portanto, de sua capacidade em “decodificar” a realidade, vindo ao encontro do que propõe Paulo Freire, em outras palavras, de que os indivíduos devem reconhecer-se na situação a que os reduz a “estado de coisas” e transcender para um plano de humanização, como seres inconclusos e conscientes dessa inconclusão. Esse reconhecer-se, traduz-se em possibilidades; de “constituição de uma ideologia que, vinculada às massas, por elas compreendidas e incorporadas,...” precede as mudanças na realidade a qual o sujeito está inserido e, em tese, modifica a si próprio, num continuo processo de dês-velamento dessa realidade, levando em conta, sobretudo, a bagagem vivencial do sujeito - objeto de uma nova reflexão crítica, a cada geração ou época, e/ou, a cada vez que o homem se apropria de seu contexto.

Os argumentos acima, traduzem o homem como sujeito de sua educação, pois aqueles, estão permeados por uma reflexão sobre o próprio homem e seu meio. Para tanto, o objetivo primeiro de toda a educação, deve ser de provocar e criar condições para que se desenvolva nos alunos uma atitude crítica e comprometida com a ação.

Para um diálogo predominantemente sincero, o educador, com proveito de seu potencial teórico, não obstante, também deve obter e partilhar esse grau de conscientização e “apropriação” do contexto em que a sociedade ora se acha.

No geral, nosso enfoque pressupõe uma espécie de neutralidade do educador, que a nosso ver é impossível, limitando a esse educador conhecer qual poder se constitui na sociedade e como está atuando. Nesse sentido, a disciplina de filosofia vem influenciar expressivamente no contexto escolar, corroborando na reflexão sobre os fatores opressivos da sociedade e, sobretudo, compromissada em contribuir na apresentação ao máximo desses fatores, que são muitas vezes desapercebidos pelos alunos. É importante salientar o aspecto de neutralidade do educador, para que os alunos percebam por si mesmos e se reconheçam como oprimidos ou não na sociedade.

Frente ao exposto, uma proposta didática viabilizadora, não escapa do diálogo e problematização da realidade em sala de aula em que, tanto o professor quanto o aluno, encontre-se em condições de aprendizagem igualmente considerada, pois há uma hegemonia de percepções de como nos encontramos no mundo, ou melhor, de expressar o mundo e a si mesmos. Sendo assim, essa hegemonia também se faz presente no próprio ato de criar, recriar, decidir, eleger e até mesmo no participar do processo histórico da sociedade. O resultado disso, é que aluno e professor contribuem e participam mutuamente do processo de conscientização e dês-velamento da realidade no âmbito dos saberes, claramente expresso por Paulo Freire: “Ninguém educa ninguém. Ninguém educa a si mesmo. As pessoas se educam entre si, mediatizadas pelo mundo”.

Bibliografia consultada:

ARANHA, M. L.de A.. Temas de filosofia. Moderna, São Paulo, 1992. 10-69 p.

Mizukami, M. da G. N., Ensino: as abordagens do processo. EPU, São Paulo, 1986, 85-102 p.

Caderno Pedagógico Paulo Freire nº. 2. Semana pedagógica Paulo Freire. Secretaria de Estado da Educação, 2001, 87 pp.

TUGEND, E. Artigo, O que é Filosofia. Trad. Maria Clara Dias. 1982.

SCHNEIDER, P.R. Introdução à Filosofia. UNIJUÍ. Ijuí, 1995. 5-45 p.


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