5.12.05

A filosofia nas salas de aula

A FILOSOFIA NAS SALAS DE AULA

Os esforços progressivos para a implantação da disciplina de filosofia nas instituições de ensino, nos levam à urgente necessidade de discutir acerca do fenômeno educativo e do ensino de filosofia.
Teoricamente, a escola é vista como um espaço reservado para que os indivíduos desenvolvam todas as suas capacidades, podendo assim contribuir para o desenvolvimento científico e moral da sociedade. Da escola se esperam profissionais capazes de preparar outros seres humanos, para assumirem uma postura teórica sobre o mundo, bem como adquirir certos hábitos, técnicas e habilidades. Vê-se, portanto, que a escola assume certos compromissos morais e epistemológicos com a sociedade em geral, e, além disso, muitas vezes assume direta ou indiretamente certos compromissos políticos e econômicos (dos quais não é meu intuito discutir neste texto).
Assim, se a disciplina de filosofia integra algum currículo escolar, essa deve assumir algum compromisso, ter uma função, ter um objetivo socialmente válido, uma vez que um dos motivos da existência das escolas é o de que elas devem cumprir uma função social. Acredito que, fundamentalmente, o objetivo da filosofia é permitir que os indivíduos assumam uma postura filosófica. A postura filosófica é, basicamente, a postura do sujeito questionador, capaz de se preocupar com a clareza conceitual e o rigor lógico dos nossos pensamentos, além de preocupar-se com a maneira mais adequada de interpretar as várias interpretações que nós próprios e os outros sujeitos humanos fazemos da realidade. Dessa forma, a filosofia justifica sua importância para a sociedade, se entendermos que há um elemento positivo no fato de que a filosofia fornece elementos teóricos necessários para o desenvolvimento humano, no que diz respeito à atitude teórico-especulativa humana.
Partindo desta perspectiva, e buscando concentrar agora minhas reflexões no âmbito prático do ensino de filosofia, acredito que a função do professor é justamente dar os elementos necessários aos alunos para que esses sejam capazes de fazer uma reflexão filosófica. O que se pretende não é expor informações determinadas e cobrar as mesmas informações determinadas, mas o objetivo primordial é criar uma postura, construir um modo de ser, lançando problemas indeterminados e buscando discutir as respostas. Ora, a filosofia entra em sala de aula como um conjunto de problemas, e não de respostas. Não é a nossa capacidade de memorizar que deve determinar um bom filósofo, mas a sua capacidade teórica-abstrata, que permite ao indivíduo perceber questões filosóficas e construir respostas a essas questões. Assim, o aluno precisa perceber-se dentro da realidade filosófica, precisa dar-se conta de que sua realidade também encontra problemas filosóficos.
Como construir uma postura filosófica? O primeiro passo é buscar enfatizar a importância da filosofia. O professor deve procurar mostrar que a filosofia é intimamente ligada à realidade, que ela toca na realidade do aluno. Não é difícil fazer o aluno verificar problemas éticos, epistemológicos, problemas conceituais em geral, mas é claro que isso exige tempo e paciência por parte do professor.
Para que o aluno olhe a realidade filosoficamente, o professor deve também olhar a realidade filosoficamente; ele deve incorporar a postura filosófica. Na prática, isso significa que as aulas devem ser participativas, abertas, deve haver diálogo, pois ele é o combustível da filosofia. O aluno precisa se sentir cúmplice do processo. A cumplicidade traz uma perspectiva de construção e de responsabilidade coletiva. Os modos de ação em sala de aula não podem deixar de levar em consideração os sujeitos que agem, que pensam. A sala de aula é um ambiente de interação entre vários seres históricos, teóricos, simbólicos, com estruturas e modos de pensar diferentes, cada um com significações singulares a respeito da realidade. É preciso, pois, que o professor explore essas diferentes dimensões, procurando conduzir discussões filosóficas para conseguir construir conclusões objetivas. As aulas de filosofia cumprem seu papel mais satisfatoriamente quando os alunos colocam os seus questionamentos, e discutem entre si e com o professor. A aula é um processo dinâmico e coletivo, orientado pelo professor. Assim, o critério para distinguirmos entre o bom e o mau professor diz respeito a sua capacidade de lançar questionamentos e de lidar com os questionamentos.
Dessa forma, o segundo passo a ser tomado é criar em sala de aula um ambiente questionador. As temáticas devem ser problematizadas antes de o professor lançar mão dos conteúdos que discutem tais temáticas. De fato, faz-se necessário estudar a história da filosofia, e as noções básicas da lógica, uma vez que são elementos necessários para o filosofar. Porém, a aula deve ser antes um convite ao filosofar do que uma proposta de simplesmente ouvir os filósofos. A lógica, os filósofos e as suas idéias, são elementos para o filosofar, mas não definem essencialmente a disciplina filosófica, pois ela é puramente uma atitude, uma postura teórico-especulativa que se assume frente à realidade. É uma atividade que produz conseqüências, mas essas conseqüências não são a sua maior riqueza, não constituem a sua razão de ser. A razão de ser da filosofia são as suas perguntas, e não as suas respostas.
Quanto às avaliações, é sempre bom lembrarmos que avaliamos objetivos e não conteúdos. Assim, perguntas que exigem reflexão pessoal, interpretações de temáticas (desde que logicamente coerentes e racionalmente fundamentadas) devem ter um peso maior do que perguntas que apenas avaliam o grau de recordação dos conteúdos. A maneira de escrever dos alunos, os seus questionamentos e o modo como formulam tais questionamentos, a clareza na exposição das suas idéias, a capacidade de perceberem as implicações dos argumentos, tudo isso deve constituir o critério das avaliações, pois essas capacidades e habilidades são um dos sinalizadores de que o aluno está assumindo uma postura filosófica. E, na medida em que isso acontece, o professor está cumprindo os seus objetivos.

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