2.12.05

Pequenas elucubrações acerca do ensino de filosofia

Mary Warnock trabalha em seu texto com o caso específico do ensino na Inglaterra. Nele defende a idéia de filosofia para muitos, ou como chamamos no Brasil, filosofia pop. No caso brasileiro a filosofia está por ser incluída nos currículos escolares. Resta saber, no presente texto, como e por que popularizar a filosofia no Ensino Médio, e quais seus benefícios e perigos.
A autora relata que na Inglaterra os jovens estavam saindo da escola semi-alfabetizados, com dificuldades para os números e mal preparados para o mercado de trabalho. Possuíam um ensino de filosofia clássico, especializado, sem atrativos e elitizado. Ela percebe problemas nesse ensino especializado, pois os estudantes saíam da escola e até mesmo da universidade sem um embasamento conceitual que permitisse adaptar-se às novas exigências feitas. Como solução, propõe o ensino de filosofia generalizado, atraente e relacionado com outras áreas. Esse tipo de filosofia mais geral permite um maior embasamento conceitual, acarretando maior adaptabilidade e capacidade de aprofundamento em posteriores especializações.
No Brasil a filosofia está por ser incluída nos currículos do ensino médio de algumas escolas. Defendo a inclusão dessa disciplina como uma forma de melhorar a capacidade crítica e reflexiva de nossos jovens. Com ela também poderão trabalhar a capacidade de abstração e raciocínio, além de envolverem-se mais com a leitura. Mas como transformar o ensino da filosofia algo interessante e produtivo? Considero que relacioná-la com outras áreas vem muito a calhar. Tentar mostrar aos jovens como a filosofia pode estar em diversas situações do cotidiano. Introduzir o assunto a ser trabalhado através de situações-problema criados pelo professor a partir de notícias proferidas pelos meios de comunicação, charges, cinema e a arte. O docente também pode trabalhar de maneira interdisciplinar, relacionando o tema filosófico a ser abordado, com assuntos já vistos pelos alunos em outras matérias. Assim, o professor pode trabalhar com a literatura, história, português, matemática e tantas outras áreas. Todavia, isso significa que a filosofia deve se reduzir às outras áreas como se não tivesse conteúdos próprios? Evidente que não. Significa apenas fazer um ensino de filosofia mais envolvente, usando maneiras de fazer com que os discentes pensem sobre os mais variados assunto de maneira filosófica. Ensiná-los a ter um olhar diferente sobre os problemas, refletindo e argumentando coerentemente sobre maneiras de resolvê-los. Isso não significa que a filosofia será a grande "salvadora da pátria". Implica apenas uma grande chance de suprimir algumas deficiências e desenvolver algumas habilidades em nossos jovens. Claro que a filosofia "cairá" no PEIES e no vestibular e isso pode gerar algumas deturpações no nosso ensino. Temos de ter o cuidado de não transformá-la em certas regras e macetes para serem decorados pelo simples fato de "cair" nos processos seletivos de ingresso ao ensino superior. É um risco? É. Mas, como se diz no mundo dos negócios, é um "risco calculado". Grandes oportunidades de benefícios geram grandes riscos de perdas. Todavia, vale para nós discutirmos desde já as deturpações que podem ocorrer nesse ensino, possíveis soluções para enfrentá-las e estratégias para evitá-las. Devemos, então, "calcular" o nosso risco. Além de evitar a redução dos assuntos de maneira que possam ser memorizados, também devemos cuidar para não reduzirmos a filosofia à história da filosofia. Considero um ensino somente baseado na história da filosofia enfadonho e inútil. Isso não significa que não devemos trabalhar com ela. É relevante contextualizarmos certos assuntos para que não fiquem como que "soltos no ar". Além disso, tem um grande papel de mostrar aos jovens que acham que formularam, de maneira inovatória, uma "teoria" que explica o ordenamento do mundo, que suas indagações já foram formuladas, apresentadas e talvez até refutadas há muito tempo. O importante é o professor ter a sensibilidade de perceber quando e como a história da filosofia deve ser trabalhada.
Defendo, portanto, o ensino de filosofia no ensino médio como uma forma de aperfeiçoamento da capacidade crítica e reflexiva. Considero que essa disciplina deve ser trabalhada de uma forma dinâmica e atraente. A melhor forma de fazer isso é relacionando-a à outras áreas e à situações enfrentadas no cotidiano. Por fim, devemos deselitizar a filosofia e cuidar com os desvios no caminho. Assim, "calculemos nossos riscos".

BIBLIOGRAFIA:
WARNOCK, Mary. Os usos da filosofia. Campinas, SP: Papirus, 1994.

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