9.12.05

Verdade e Justificação

Suponha-se que em um tribunal o juiz precisa julgar um caso de homicídio. Há provas contra e a favor do réu. As provas documentais dizem que o réu estava em um evento ocorrido no dia e durante o horário do crime. Há fotos dele naquele evento e dez testemunhas que dizem tê-lo visto o tempo todo na festa. Porém, a prova pericial confirmou que as digitais na arma encontrada perto do local do crime são as mesmas do réu e uma testemunha diz tê-lo visto conversando com a vítima pouco tempo antes do crime. Pergunta-se: o juiz deverá cofiar no testemunho de dez pessoas e nas fotos do réu no evento, ou confiar na prova pericial que condena o réu e no testemunho de uma pessoa que o viu com a vítima pouco tempo antes do crime?
Ora, parece que dez pessoas se enganarem de ter visto um homem é muito mais difícil do que uma. E talvez essa única pessoa que diz ter visto o réu tenha visto sob condições ruins de iluminação e distância. Porém uma prova científica feita com instrumentos mais precisos de identificação do que a percepção sensível pode também parecer mais confiável do que o testemunho de dez pessoas que podem ter visto alguém que talvez estivesse se fazendo passar pelo réu enquanto o crime acontecia. O problema no qual o juiz se encontra é muito difícil e não se tem um critério muito preciso neste caso para determinar quem está dizendo a verdade.
A verdade muitas vezes pode ser mascarada e é muito complicado estabelecer critérios para se dizer o que é verdadeiro ou falso. E a percepção sensível é muito suscetível de erro para servir como critério de verdade. Talvez o mais adequado seja estabelecer critérios de justificação que dê garantia de verdade a algum conhecimento. Mas até mesmo algo falso pode ser justificado através de razões que sejam coerentes entre si. Pergunta-se: como podemos distinguir a verdade da falsidade?
O que vou esboçar a seguir não é uma solução ao problema acima, mas vou fazer algumas distinções importantes para começar a se pensar sobre como justificar os nossos conhecimentos.
A definição tradicionalmente aceita de conhecimento é uma das definições propostas por Platão no Teeteto que diz que conhecimento é crença verdadeira justificada. Adotando esta definição tem-se o seguinte: em primeiro lugar, para haver conhecimento deve-se ter uma crença; em segundo, esta crença deve ser verdadeira; e por fim, esta crença verdadeira deve ser justificada. Não basta ter apenas uma crença verdadeira porque muitas vezes a verdade é acidental, por exemplo, é como fazer um “chute” em uma prova e acertar.
Existem vários tipos de crenças, a saber, crenças morais, religiosas, epistemológicas etc. As crenças que interessam para o tema são as crenças epistemológicas, pois estas são crenças proposicionais acerca de fatos e somente a estas se pode dizer que são verdadeiras ou falsas. Temos conhecimentos referentes a habilidades (saber-fazer), conhecemos pessoas, lugares (conhecimentos por familiaridade ou por contato), e temos o conhecimento proposicional (saber-que) ao qual nos referimos acima.
Uma crença pode ser causada, motivada ou ser justificada. Uma crença quando é causada é por uma causa externa (material ou mecânica); quando uma crença é motivada é por um motivo psicológico; e quando uma crença é justificada é por uma razão. É esta última que nos interessa para a abordagem do tema proposto.
As teorias de justificação mais comuns são o fundacionismo e o coerentismo, mas existem outras, tais como o confiabilismo, o contextualismo, as teorias da anulabilidade, a teoria causal, etc. A seguir vou comentar brevemente as teorias fundacionistas e coerentistas, mas com isso não pretendo ignorar as outras teorias que são também alternativas a essas.
Segundo o fundacionismo uma crença deve estar fundada em outras razões, mas existe uma razão básica que fundamenta todas as outras enquanto ela mesma não é suportada por nenhuma. Já o coerentismo nega que tenha uma razão básica que fundamente as outras, mas que todas as crenças são sustentadas mutuamente como se fosse uma rede.
Essas teorias apresentam problemas. Uma objeção ao fundacionismo é que ele deveria propor uma distinção para saber o que torna uma crença propriamente básica e o que torna uma crença, simplesmente, para a qual nenhuma razão é dada. Outra objeção é que a razão básica por não ser sustentada por nenhuma outra, torna-se arbitrária. E se houver alguma razão para saber que não é arbitrária, então esta ainda é sustentada por outra e não pode haver proposições fundacionistas.
A objeção feita ao coerentismo é que argumentar em círculo não é um modo de inferência aceitável, e então, o que é que tornaria aceitável em alguns casos? Mas os coerentistas diriam que uma crença é garantida unicamente no caso de ser um membro de um conjunto coerente de crenças. Entretanto, alguém ainda objetaria, o que torna um conjunto de crenças coerentes, X1, mais aceitável que um outro conjunto de crenças coerentes, X2? Se os coerentistas têm uma resposta para aquela objeção, então adotam uma razão para justificar a adoção de um conjunto coerente de crenças, mas ao adotar esta razão externa ao conjunto parecem utilizarem-se de uma posição fundacionista. Caso não tenham uma resposta para aquela objeção, então a adoção de X1 ou de X2 é arbitrária.
Vê-se que ambas as teorias da justificação apresentadas podem ser objetadas de diversas maneiras, mas isso não prejudicou a construção de projetos filosóficos assentados nesses modelos de justificação. O cartesianismo, por exemplo, tem “Deus” como o fundamento de todo o conhecimento possível, e esta idéia é tão necessária que ao tê-la percebe-se que ela mesma é que torna possível o conhecimento do próprio sujeito que a pensa. Kant também pode ser considerado um fundacionista, ao colocar na noção de “apercepção originária” a possibilidade de todas as sínteses necessárias ao conhecimento, a síntese da sensibilidade, da imaginação e da cognição.
Donald Davidson diz que todas as crenças são justificadas se são suportadas por inúmeras outras crenças e sua presunção a favor da verdade aumenta quanto mais significativo for o todo com o qual a crença é coerente. Com a mudança no conceito de ciência após a morte de Hegel que marca a entrada para a contemporaneidade, parece que os filósofos dão preferência a um modelo de justificação coerentista. Antes ciência significava um saber necessário e absoluto, na filosofia contemporânea, ela passa a ser um saber falível, suscetível de ser falseado.
Assim, parece que um modelo de justificação coerentista ou também contextualista teria maior aceitabilidade na época em que vivemos. O contextualismo diz que uma proposição é propriamente básica apenas no caso em que ela é aceita por uma comunidade relevante de conhecedores, ou seja, o que torna uma razão básica é dependente do contexto. Mas o contextualismo também apresenta problemas, pois o que distingue uma proposição básica de uma proposição meramente oferecida e aceita por uma comunidade de supostos conhecedores? Susan Haak fala que atualmente grande parte os pesquisadores estão mais preocupados com a produtividade e eficiência, tendo como conseqüência disso a “erosão da integridade intelectual”. E, com isso, dilui-se a preocupação com a verdade, pois ao invés de se buscar conhecimento, busca-se produtividade.
O problema com a justificação de nossos conhecimentos e com a determinação do que é a verdade e do que pode ser considerado verdadeiro acompanha a humanidade desde a antiguidade. Dizer o que é a verdade é uma questão muito complicada e controversa, talvez possa-se dizer com melhor aceitação o que pode ser aceito como verdade e aí justificá-la de acordo com algum modelo de justificação. Saber a verdade sobre as coisas continua uma questão intrigante.

Bibliografia:

Peter Klein – O conceito de conhecimento
Susan Haak – À espera de uma resposta: O processo desordenado de tactear a verdade
Aires Almeida, et al. – A arte de pensar, Filosofia 10º ano

2 Comments:

Blogger STEIN said...

Fiquei com pena de nao ter comentarios>>

domingo, abril 29, 2012 12:19:00 AM  
Blogger papai said...

Gostei bastante! Vai me ajudar no meu trabalho da faculdade. Obrigado!

segunda-feira, julho 14, 2014 12:46:00 AM  

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